Estava no restaurante Gula Insana. Pedi o cardápio. Não solicitei o “menu” porque odeio usar termos estrangeiros quando estou no Brasil. Logo após solicitar isso ao garçom, ele me trouxe um calhamaço de umas seiscentas páginas, aproximadamente com pratos que eu jamais ouvira falar em toda minha vida. By the way, tenho 26 anos. Fechei os olhos e fiz de conta que estava num culto da seita Chantilly de Deus e me vali do recurso da escuta de Jesus. É quando eles abrem a bíblia aleatoriamente após rezarem e pedirem a Deus que ele decida algo que o senso racional dos membros da comunidade não consegue resolver sozinho, ou seja: praticamente tudo. Peguei o menu, e ele devia pesar uns 7 kilos tranquilamente, e o abri aleatoriamente, tomando cuidado para não abrir muito no final, pois lá estavam as sobremesas, conforme constava no índice, e acabei abrindo na página 387. Terceiro prato na segunda coluna, canto médio-superior direito. Constava a composição do prato em idioma francês, mas como sou anti-estrangeirismos nem quis saber de traduzir e pedi que trouxessem aquele mesmo. Trouxessem, assim mesmo no plural, porque são cinco garçons para cada mesa.
Esperei naquela mesa por cinco dias até que meu pedido chegasse. Sem tomar banho, sem beber água, sem comer nada, para não atrapalhar o meu apetite.
Meu suor se juntou à minha roupa fundindo-a à minha pele. Minhas unhas cresceram como se tivessem se passado pelo menos uns cinco meses. Minha barba estava enorme também. A língua havia ficado seca e tinha pregado no palato. Eu tentava mexê-la, mas era difícil e dolorido. À medida que a puxava para traz, a camada superficial da língua ia se despregando dela e isso causava uma intensa dor. Os dentes estavam cerrados desde cinco dias atrás, quando sentei naquela cadeira de cinco metros de altura para pedir o meu prato. A mandíbula havia travado e alguns dentes já estavam trincados desde as pontas até a raiz.
Foi quando percebi que um grupo de cem homens, todos nus, em sua maioria brancos e de cabelos bem pretos, se enfileirou na parede do fundo do restaurante e começaram a cantar Carmina Burana. Quatro daqueles rapazes se destacaram do grupo, indo até a cozinha, sem parar de cantar, no entanto, e vieram em direção à mesa em que eu estava.
Seria interessante acrescentar que o restaurante era todo forrado com papel de parede roxo com detalhes em ouro puro. O pé direito do prédio media aproximadamente 15m. As paredes laterais tinham 17 janelas cada uma. As janelas eram de vidro, medindo 1m de base por 7 de altura. A mesa, estava a cinco metros e oitenta e cinco centímetros do chão. As cadeiras eram estruturas metálicas que começavam em forma de escadas, no chão, e iam subindo em forma de hélice de DNA dando voltas até chegar ao acento. Eram quatro cadeiras por mesa, mas a minha estava ocupada apenas por mim.
Os cinco garçons que rodeiam todas as mesas, ficam se equilibrando em enormes pernas de pau. Deve ser bastante difícil andar em pernas de pau e ainda servir pratos, equilibrar bandejas, etc.
Voltando ao assunto, os cinco rapazes que estavam no coro que entoava Carmina Burana aproximaram-se da minha mesa e começaram a subir as escadas, trazendo o meu prato. Como eram seis, dois ficaram em uma cadeira, dois em outra e três em outra.
O mais bonito deles colocou sobre a mesa uma pequena bandeja tampada, tal qual as que aparecem nos desenhos de Tom e Jerry ou Pica-Pau. Quando enfim retirou a tampa semi-circular, lágrimas passearam por minhas bochechas alegremente, ligeiras em procurar a força da gravidade, que as levasse ao passeio que conduziria ao chão.
Era uma belíssima e pequena sopa de letrinhas. O caldo era azul e as letrinhas variavam em dégradé entre o alaranjado e o amarelo.
Entretanto, para meu desespero, as letras se encaminhavam para a colher formando palavras estrangeiras. Na primeira vez que introduzi a colher na sopa e a retirei, sem me preocupar com quais letras seriam recolhidas, apareceram três delas apenas, formando a palavra “ass”. Achei um desaforo e as despejei novamente ao prato, repetindo a operação, mas a nova palavra formada foi “fuck”. Eu reparei na expressão dos oito caras que estavam nus sentados em minha mesa e estavam todos olhando para o teto, com sorrisos desenhados no que dava para ver de seus rostos. Percebi que o som do coral dos homens nus também havia mudado a direção, e quando os vi, estavam todos olhando para o teto também. Devolvi pela segunda vez a colherada de sopa ao prato e pegando novamente mais um pouco, após remexer bem para ver se aqueles palavrões paravam de aparecer, levantei a colher e já ia colocando na boca, mas resolvi ver se havia se formado alguma outra palavra e estava lá escrito o seguinte: pussy’s bad!
Todo o coral, as mesas do restaurante e os nove homens que estavam em minha mesa romperam numa uníssona gargalhada que durou mais de oito segundos e se silenciaram com a mesma sincronicidade que começaram.
Na quarta tentativa de tomar a sopa, mas com alguma palavra que fosse digna, peguei outra colherada, após devolver “pussy is bad ” ao prato, e veio escrito: shark!
Foi nesse exato momento que vi uma expressão de pânico generalizada em todas as pessoas presentes. Os dez rapazes que se espremiam nas cadeiras de minha mesa se arremessaram ao chão num desespero de dar pena.
[Que sono e que dor de cabeça...
Acho que vou aumentar o volume do som.
Está tocando Queen... no épico show que fizeram no Rock’n Rio].
Os onze cantores que se arremessaram ao chão conseguiram cair em pé e não se machucaram. Entretanto, as contorcionistas em tecido que ficavam no centro do restaurante não tiveram a mesma sorte e foram devoradas pelo tubarão aéreo. Estes doze rapazes que estavam em minha mesa haviam se jogado de lá para se salvarem do ataque iminente do tubarão aéreo.
As moças foram devoradas... os treze rapazes conseguiram se salvar, mas o restante nunca mais teve oportunidade de cantar Carmina Burana... Havia no fundo do restaurante um tubarão... ele... voava... a sopa o criou... ele matou todos os quatorze garçons que se lançaram da minha mesa... as contorcionistas tentaram... viraram pano também... ou não... tudo está tão tátil... esse ar morno e fofo... dentes... sinto dentes percorrerem meu corpo abrindo fendas entre o tecido adiposo farto e os escondidos músculos... a sensação pior é a da gastura de sentir o friccionar dos dentes com meus ossos... senti que um se partiu em minha patela... os garçons musicais me morreram... as dançarinas de tecido fizeram acrobacias na carne... eu....
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