Calango Pontuado.
Eu estava sentado em minha cadeira de quatro penas humanas, orando pra uma melancia musical quando de repente o meu cafezinho se transformou em um escravo italiano de sotaque uruguaio.
Luciwando estava no quintal de maiô de estampa de zebra tomando banho de mangueira com sua sandália de salto plataforma verde-limão, quando percebeu que estava sendo observado por um calango filósofo do alto da galha do pé de goiaba.
Quando menos esperava, ainda absorto em pensamentos e tensão ao observar o calango lhe consumia em olhares, surgiu de uma vez e fazendo grande alarido um ponto final ao seu lado.
O ponto.
Urgia em finalizar a breve existência de tudo, mas Luciwando tentava barganhar em ao menos ponto e vírgula. Implorou por reticências, mas o ponto se mostrava resoluto. Era ponto e ponto final! O ponto era aquela enorme mancha negra em círculo perfeito no chão, por onde entre seus infinitos vazios ecoavam gritos de continuidade amputada. Eram horripilantes. E o calango mudava de cores de acordo com os timbres dos gritos.
Foi então que apareceram diretamente de Natal- RN, professores de cacuriá, dançando sem parar uma dança louca, musicada pelos próprios gritos emanados do ponto, no intuito de diminuí-lo e tentar transformá-lo em nada.
Nada feito. O ponto cresceu. Pôs fim em Luciwando. Um ponto final em sua bio-existência. Pontuou também o calango que tentou se disfarçar de galho.
Eu via tudo da janela da minha cozinha e ao perceber o ponto se aproximando orei de com força para minha melancia musical e suas sementes espalharam-se pelo chão, formando uma passarela que se suspendia do solo e pairava suavemente no ar. Ao subir, semente a semente, as percebi aderindo à minha pele. Senti meus movimentos ficarem lentos gradativamente. E quando dei por mim era uma melancia escritora, que produzia sem parar textos inteiros em seu miolo, sem jamais poder lançá-los ao meio material para compartilhar dos próprios versos.
Todos os outros aspectos e idéias do texto deveriam ser mais explorados, mas o ponto interrompeu o fluxo de tudo.
Como não percebi? A melancia era a armadilha do ponto. Era, na verdade, um grande ponto verde, em cujo interior existiam inúmeros outros pontos pretos numa vastidão vermelha.
Ponto final.
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