Rezei para Santa Nike e pedi proteção para meus pés, sobretudo para os dedos.
Uma semana depois ganhei um sapatênis do João Confecções e desde então virei ateu convicto.
E tenho pés pagãos.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Edelweiss Efêmera
Eulália era uma flor edelweiss que vivia feliz na ponta de um penhasco, com suas sensíveis raízes fincadas atrás de uma grande pedra que a protegia. Diz a lenda que estas plantas são sensíveis demais e muito bonitas. Eu, particularmente, acho cafonas e assimétricas demais. Sem falar que são de uma economia de cores, que não sobra quase nada pra ver além de duas ou três cores muito esquálidas em meio à textura fofa de suas pétalas.
Eulália acordava feliz todas as manhãs e agradecia a Deus por ser uma edelweiss e não uma flor comum como as outras. Gostava de sentir o vento pobre de oxigênio, típico das regiões altas, roçar por entre suas pétalas, e achava gostosa a sensação causada no gineceu.
Admirava o esplendor do sol, os vôos das aves e era também admirada pelo sol e pelas aves. Todos a achavam deslumbrante. Era o sucesso dos prados. A flor entre as flores. Sua vida era um eterno glamour entre os vegetais da natureza.
Não havia uma só pessoa que não admirasse a beleza de Eulália.
Certo dia, porém, Bonno, um cachorrinho vira-latas, correu nas imediações onde Eulália vivia. Bonno, tendo gostado daquela região fez xixi em cima de Eulália para marcar território.
Eulália morreu.
Eulália acordava feliz todas as manhãs e agradecia a Deus por ser uma edelweiss e não uma flor comum como as outras. Gostava de sentir o vento pobre de oxigênio, típico das regiões altas, roçar por entre suas pétalas, e achava gostosa a sensação causada no gineceu.
Admirava o esplendor do sol, os vôos das aves e era também admirada pelo sol e pelas aves. Todos a achavam deslumbrante. Era o sucesso dos prados. A flor entre as flores. Sua vida era um eterno glamour entre os vegetais da natureza.
Não havia uma só pessoa que não admirasse a beleza de Eulália.
Certo dia, porém, Bonno, um cachorrinho vira-latas, correu nas imediações onde Eulália vivia. Bonno, tendo gostado daquela região fez xixi em cima de Eulália para marcar território.
Eulália morreu.
Eu promíscua.
Tava de namoro com o infinito, mas o cara era pura filosofia e abstração.
Tentei um flerte com a morte, mas era muito misteriosa. Entrar nesse relacionamento com ela seria como assinar um contrato em branco e dar nas mãos de qualquer desconhecido.
A existência me ronda sempre. Às vezes simpática, às vezes tão apagada, que nem noto que está ali.
O futuro é lindo! Charmoso... Me faz tremer na base, me seduz, me dá tesão! Faz promessas lindas e apaixonantes. Mas está sempre a me dar o bolo. Sempre marca de nos vermos e nunca vem. Vive adiando, sempre fugindo.
O passado, coitado, é um infeliz horroroso que vive a me espreitar por todos os lugares, sempre chamando pra qualquer conversa, sempre tentando uma reaproximação, um revival. Mas é tão feio que não consigo.
Só a solidão é companheira. Está sempre ao meu lado, mesmo nos momentos em que estou no meio de multidões. Sempre aqui do lado, sempre posso ouvir sua respiração.
Para tentar resolver o impasse do relacionamento que queria, resolvi particionar o eu e criei vários de mim, cada qual com partes diferentes do eu principal. Mas logo eles começaram a brigar entre si e fazem de tudo para se sabotarem, mal sabendo que a morte de um implica no falecimento do resto.
Essa suruba das consciências ainda há fazer merda um dia.
Tentei um flerte com a morte, mas era muito misteriosa. Entrar nesse relacionamento com ela seria como assinar um contrato em branco e dar nas mãos de qualquer desconhecido.
A existência me ronda sempre. Às vezes simpática, às vezes tão apagada, que nem noto que está ali.
O futuro é lindo! Charmoso... Me faz tremer na base, me seduz, me dá tesão! Faz promessas lindas e apaixonantes. Mas está sempre a me dar o bolo. Sempre marca de nos vermos e nunca vem. Vive adiando, sempre fugindo.
O passado, coitado, é um infeliz horroroso que vive a me espreitar por todos os lugares, sempre chamando pra qualquer conversa, sempre tentando uma reaproximação, um revival. Mas é tão feio que não consigo.
Só a solidão é companheira. Está sempre ao meu lado, mesmo nos momentos em que estou no meio de multidões. Sempre aqui do lado, sempre posso ouvir sua respiração.
Para tentar resolver o impasse do relacionamento que queria, resolvi particionar o eu e criei vários de mim, cada qual com partes diferentes do eu principal. Mas logo eles começaram a brigar entre si e fazem de tudo para se sabotarem, mal sabendo que a morte de um implica no falecimento do resto.
Essa suruba das consciências ainda há fazer merda um dia.
Criança de Luz
A criança brincava no parquinho
Sentou-se no brinquedo de rodar e fez força com os braços pra girar mais rápido
Forçava o engenho com as mãos pra ir mais veloz e deixava deslizar os pés descalços na areia
Os vermes do chão penetraram pela derme ainda fina dos pés do infante
A criança brincava no parquinho
Após vermes entrarem em sua pele das extremidades dos membros inferiores bilateralmente
Sentiu dentro de si uma energia estranha
Não era energia, eram bichos a devorarem suas entranhas
A criança deixava de brincar no parquinho
Para cair em triste moleza no canto da árvore, enterrando mais ainda seus pezinhos na areia
Tinha oito anos e lembrou-se da ultima ceia
De natal que havia acontecido a dois dias
A criança desmaiou no parque
Os vermes superpotentes cresceram em minutos e lhe devoraram as vísceras
A criança, antes de suspirar derradeiramente, mirou o sol e o colorido do parque
Tentou gravar as vozes dos amiguinhos que brincavam próximos
E deitou-se em posição fetal
De modo que um fio de grama lhe entrou no ouvido
Causando imenso incômodo e cócegas
Não teve tempo de acomodar-se melhor e já foi virando uma bolinha de gude azul. Que a princípio era vidro líquido e depois rolou pela areia em meio aos raros fiapos de grama e foi se transformando em luz azul.
Essa luz, que parecia ser o espírito da criança, acabou esbarrando no vidro de um carro de um gay apressado que passava e foi rebatida para dentro de um pingente que o rapaz usava. Duas horas depois, quando já era noite, o cara dançava numa boate e a luz se desprendeu do pingente porque um raio laser verde incidiu sobre ele. Essa luzinha verde saiu afoita, ávida de liberdade, querendo migrar aos céus e ter eterno descanso e prados verdejantes para brincar, mas em sua trajetória louca de velocidade incalculável chocou-se contra um copo que continha um drink chamado lagoa azul... e a luzinha criança foi bebida. Iluminou todo o trato digestivo da travesti que o bebeu e se integrou às fezes da mona. Foi a primeira vez na história desse país que uma travesti fez cocô fluorescente.
Sentou-se no brinquedo de rodar e fez força com os braços pra girar mais rápido
Forçava o engenho com as mãos pra ir mais veloz e deixava deslizar os pés descalços na areia
Os vermes do chão penetraram pela derme ainda fina dos pés do infante
A criança brincava no parquinho
Após vermes entrarem em sua pele das extremidades dos membros inferiores bilateralmente
Sentiu dentro de si uma energia estranha
Não era energia, eram bichos a devorarem suas entranhas
A criança deixava de brincar no parquinho
Para cair em triste moleza no canto da árvore, enterrando mais ainda seus pezinhos na areia
Tinha oito anos e lembrou-se da ultima ceia
De natal que havia acontecido a dois dias
A criança desmaiou no parque
Os vermes superpotentes cresceram em minutos e lhe devoraram as vísceras
A criança, antes de suspirar derradeiramente, mirou o sol e o colorido do parque
Tentou gravar as vozes dos amiguinhos que brincavam próximos
E deitou-se em posição fetal
De modo que um fio de grama lhe entrou no ouvido
Causando imenso incômodo e cócegas
Não teve tempo de acomodar-se melhor e já foi virando uma bolinha de gude azul. Que a princípio era vidro líquido e depois rolou pela areia em meio aos raros fiapos de grama e foi se transformando em luz azul.
Essa luz, que parecia ser o espírito da criança, acabou esbarrando no vidro de um carro de um gay apressado que passava e foi rebatida para dentro de um pingente que o rapaz usava. Duas horas depois, quando já era noite, o cara dançava numa boate e a luz se desprendeu do pingente porque um raio laser verde incidiu sobre ele. Essa luzinha verde saiu afoita, ávida de liberdade, querendo migrar aos céus e ter eterno descanso e prados verdejantes para brincar, mas em sua trajetória louca de velocidade incalculável chocou-se contra um copo que continha um drink chamado lagoa azul... e a luzinha criança foi bebida. Iluminou todo o trato digestivo da travesti que o bebeu e se integrou às fezes da mona. Foi a primeira vez na história desse país que uma travesti fez cocô fluorescente.
Restaurante Gula Insana
Estava no restaurante Gula Insana. Pedi o cardápio. Não solicitei o “menu” porque odeio usar termos estrangeiros quando estou no Brasil. Logo após solicitar isso ao garçom, ele me trouxe um calhamaço de umas seiscentas páginas, aproximadamente com pratos que eu jamais ouvira falar em toda minha vida. By the way, tenho 26 anos. Fechei os olhos e fiz de conta que estava num culto da seita Chantilly de Deus e me vali do recurso da escuta de Jesus. É quando eles abrem a bíblia aleatoriamente após rezarem e pedirem a Deus que ele decida algo que o senso racional dos membros da comunidade não consegue resolver sozinho, ou seja: praticamente tudo. Peguei o menu, e ele devia pesar uns 7 kilos tranquilamente, e o abri aleatoriamente, tomando cuidado para não abrir muito no final, pois lá estavam as sobremesas, conforme constava no índice, e acabei abrindo na página 387. Terceiro prato na segunda coluna, canto médio-superior direito. Constava a composição do prato em idioma francês, mas como sou anti-estrangeirismos nem quis saber de traduzir e pedi que trouxessem aquele mesmo. Trouxessem, assim mesmo no plural, porque são cinco garçons para cada mesa.
Esperei naquela mesa por cinco dias até que meu pedido chegasse. Sem tomar banho, sem beber água, sem comer nada, para não atrapalhar o meu apetite.
Meu suor se juntou à minha roupa fundindo-a à minha pele. Minhas unhas cresceram como se tivessem se passado pelo menos uns cinco meses. Minha barba estava enorme também. A língua havia ficado seca e tinha pregado no palato. Eu tentava mexê-la, mas era difícil e dolorido. À medida que a puxava para traz, a camada superficial da língua ia se despregando dela e isso causava uma intensa dor. Os dentes estavam cerrados desde cinco dias atrás, quando sentei naquela cadeira de cinco metros de altura para pedir o meu prato. A mandíbula havia travado e alguns dentes já estavam trincados desde as pontas até a raiz.
Foi quando percebi que um grupo de cem homens, todos nus, em sua maioria brancos e de cabelos bem pretos, se enfileirou na parede do fundo do restaurante e começaram a cantar Carmina Burana. Quatro daqueles rapazes se destacaram do grupo, indo até a cozinha, sem parar de cantar, no entanto, e vieram em direção à mesa em que eu estava.
Seria interessante acrescentar que o restaurante era todo forrado com papel de parede roxo com detalhes em ouro puro. O pé direito do prédio media aproximadamente 15m. As paredes laterais tinham 17 janelas cada uma. As janelas eram de vidro, medindo 1m de base por 7 de altura. A mesa, estava a cinco metros e oitenta e cinco centímetros do chão. As cadeiras eram estruturas metálicas que começavam em forma de escadas, no chão, e iam subindo em forma de hélice de DNA dando voltas até chegar ao acento. Eram quatro cadeiras por mesa, mas a minha estava ocupada apenas por mim.
Os cinco garçons que rodeiam todas as mesas, ficam se equilibrando em enormes pernas de pau. Deve ser bastante difícil andar em pernas de pau e ainda servir pratos, equilibrar bandejas, etc.
Voltando ao assunto, os cinco rapazes que estavam no coro que entoava Carmina Burana aproximaram-se da minha mesa e começaram a subir as escadas, trazendo o meu prato. Como eram seis, dois ficaram em uma cadeira, dois em outra e três em outra.
O mais bonito deles colocou sobre a mesa uma pequena bandeja tampada, tal qual as que aparecem nos desenhos de Tom e Jerry ou Pica-Pau. Quando enfim retirou a tampa semi-circular, lágrimas passearam por minhas bochechas alegremente, ligeiras em procurar a força da gravidade, que as levasse ao passeio que conduziria ao chão.
Era uma belíssima e pequena sopa de letrinhas. O caldo era azul e as letrinhas variavam em dégradé entre o alaranjado e o amarelo.
Entretanto, para meu desespero, as letras se encaminhavam para a colher formando palavras estrangeiras. Na primeira vez que introduzi a colher na sopa e a retirei, sem me preocupar com quais letras seriam recolhidas, apareceram três delas apenas, formando a palavra “ass”. Achei um desaforo e as despejei novamente ao prato, repetindo a operação, mas a nova palavra formada foi “fuck”. Eu reparei na expressão dos oito caras que estavam nus sentados em minha mesa e estavam todos olhando para o teto, com sorrisos desenhados no que dava para ver de seus rostos. Percebi que o som do coral dos homens nus também havia mudado a direção, e quando os vi, estavam todos olhando para o teto também. Devolvi pela segunda vez a colherada de sopa ao prato e pegando novamente mais um pouco, após remexer bem para ver se aqueles palavrões paravam de aparecer, levantei a colher e já ia colocando na boca, mas resolvi ver se havia se formado alguma outra palavra e estava lá escrito o seguinte: pussy’s bad!
Todo o coral, as mesas do restaurante e os nove homens que estavam em minha mesa romperam numa uníssona gargalhada que durou mais de oito segundos e se silenciaram com a mesma sincronicidade que começaram.
Na quarta tentativa de tomar a sopa, mas com alguma palavra que fosse digna, peguei outra colherada, após devolver “pussy is bad ” ao prato, e veio escrito: shark!
Foi nesse exato momento que vi uma expressão de pânico generalizada em todas as pessoas presentes. Os dez rapazes que se espremiam nas cadeiras de minha mesa se arremessaram ao chão num desespero de dar pena.
[Que sono e que dor de cabeça...
Acho que vou aumentar o volume do som.
Está tocando Queen... no épico show que fizeram no Rock’n Rio].
Os onze cantores que se arremessaram ao chão conseguiram cair em pé e não se machucaram. Entretanto, as contorcionistas em tecido que ficavam no centro do restaurante não tiveram a mesma sorte e foram devoradas pelo tubarão aéreo. Estes doze rapazes que estavam em minha mesa haviam se jogado de lá para se salvarem do ataque iminente do tubarão aéreo.
As moças foram devoradas... os treze rapazes conseguiram se salvar, mas o restante nunca mais teve oportunidade de cantar Carmina Burana... Havia no fundo do restaurante um tubarão... ele... voava... a sopa o criou... ele matou todos os quatorze garçons que se lançaram da minha mesa... as contorcionistas tentaram... viraram pano também... ou não... tudo está tão tátil... esse ar morno e fofo... dentes... sinto dentes percorrerem meu corpo abrindo fendas entre o tecido adiposo farto e os escondidos músculos... a sensação pior é a da gastura de sentir o friccionar dos dentes com meus ossos... senti que um se partiu em minha patela... os garçons musicais me morreram... as dançarinas de tecido fizeram acrobacias na carne... eu....
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Esperei naquela mesa por cinco dias até que meu pedido chegasse. Sem tomar banho, sem beber água, sem comer nada, para não atrapalhar o meu apetite.
Meu suor se juntou à minha roupa fundindo-a à minha pele. Minhas unhas cresceram como se tivessem se passado pelo menos uns cinco meses. Minha barba estava enorme também. A língua havia ficado seca e tinha pregado no palato. Eu tentava mexê-la, mas era difícil e dolorido. À medida que a puxava para traz, a camada superficial da língua ia se despregando dela e isso causava uma intensa dor. Os dentes estavam cerrados desde cinco dias atrás, quando sentei naquela cadeira de cinco metros de altura para pedir o meu prato. A mandíbula havia travado e alguns dentes já estavam trincados desde as pontas até a raiz.
Foi quando percebi que um grupo de cem homens, todos nus, em sua maioria brancos e de cabelos bem pretos, se enfileirou na parede do fundo do restaurante e começaram a cantar Carmina Burana. Quatro daqueles rapazes se destacaram do grupo, indo até a cozinha, sem parar de cantar, no entanto, e vieram em direção à mesa em que eu estava.
Seria interessante acrescentar que o restaurante era todo forrado com papel de parede roxo com detalhes em ouro puro. O pé direito do prédio media aproximadamente 15m. As paredes laterais tinham 17 janelas cada uma. As janelas eram de vidro, medindo 1m de base por 7 de altura. A mesa, estava a cinco metros e oitenta e cinco centímetros do chão. As cadeiras eram estruturas metálicas que começavam em forma de escadas, no chão, e iam subindo em forma de hélice de DNA dando voltas até chegar ao acento. Eram quatro cadeiras por mesa, mas a minha estava ocupada apenas por mim.
Os cinco garçons que rodeiam todas as mesas, ficam se equilibrando em enormes pernas de pau. Deve ser bastante difícil andar em pernas de pau e ainda servir pratos, equilibrar bandejas, etc.
Voltando ao assunto, os cinco rapazes que estavam no coro que entoava Carmina Burana aproximaram-se da minha mesa e começaram a subir as escadas, trazendo o meu prato. Como eram seis, dois ficaram em uma cadeira, dois em outra e três em outra.
O mais bonito deles colocou sobre a mesa uma pequena bandeja tampada, tal qual as que aparecem nos desenhos de Tom e Jerry ou Pica-Pau. Quando enfim retirou a tampa semi-circular, lágrimas passearam por minhas bochechas alegremente, ligeiras em procurar a força da gravidade, que as levasse ao passeio que conduziria ao chão.
Era uma belíssima e pequena sopa de letrinhas. O caldo era azul e as letrinhas variavam em dégradé entre o alaranjado e o amarelo.
Entretanto, para meu desespero, as letras se encaminhavam para a colher formando palavras estrangeiras. Na primeira vez que introduzi a colher na sopa e a retirei, sem me preocupar com quais letras seriam recolhidas, apareceram três delas apenas, formando a palavra “ass”. Achei um desaforo e as despejei novamente ao prato, repetindo a operação, mas a nova palavra formada foi “fuck”. Eu reparei na expressão dos oito caras que estavam nus sentados em minha mesa e estavam todos olhando para o teto, com sorrisos desenhados no que dava para ver de seus rostos. Percebi que o som do coral dos homens nus também havia mudado a direção, e quando os vi, estavam todos olhando para o teto também. Devolvi pela segunda vez a colherada de sopa ao prato e pegando novamente mais um pouco, após remexer bem para ver se aqueles palavrões paravam de aparecer, levantei a colher e já ia colocando na boca, mas resolvi ver se havia se formado alguma outra palavra e estava lá escrito o seguinte: pussy’s bad!
Todo o coral, as mesas do restaurante e os nove homens que estavam em minha mesa romperam numa uníssona gargalhada que durou mais de oito segundos e se silenciaram com a mesma sincronicidade que começaram.
Na quarta tentativa de tomar a sopa, mas com alguma palavra que fosse digna, peguei outra colherada, após devolver “pussy is bad ” ao prato, e veio escrito: shark!
Foi nesse exato momento que vi uma expressão de pânico generalizada em todas as pessoas presentes. Os dez rapazes que se espremiam nas cadeiras de minha mesa se arremessaram ao chão num desespero de dar pena.
[Que sono e que dor de cabeça...
Acho que vou aumentar o volume do som.
Está tocando Queen... no épico show que fizeram no Rock’n Rio].
Os onze cantores que se arremessaram ao chão conseguiram cair em pé e não se machucaram. Entretanto, as contorcionistas em tecido que ficavam no centro do restaurante não tiveram a mesma sorte e foram devoradas pelo tubarão aéreo. Estes doze rapazes que estavam em minha mesa haviam se jogado de lá para se salvarem do ataque iminente do tubarão aéreo.
As moças foram devoradas... os treze rapazes conseguiram se salvar, mas o restante nunca mais teve oportunidade de cantar Carmina Burana... Havia no fundo do restaurante um tubarão... ele... voava... a sopa o criou... ele matou todos os quatorze garçons que se lançaram da minha mesa... as contorcionistas tentaram... viraram pano também... ou não... tudo está tão tátil... esse ar morno e fofo... dentes... sinto dentes percorrerem meu corpo abrindo fendas entre o tecido adiposo farto e os escondidos músculos... a sensação pior é a da gastura de sentir o friccionar dos dentes com meus ossos... senti que um se partiu em minha patela... os garçons musicais me morreram... as dançarinas de tecido fizeram acrobacias na carne... eu....
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domingo, 25 de dezembro de 2011
Calango Pontuado
Calango Pontuado.
Eu estava sentado em minha cadeira de quatro penas humanas, orando pra uma melancia musical quando de repente o meu cafezinho se transformou em um escravo italiano de sotaque uruguaio.
Luciwando estava no quintal de maiô de estampa de zebra tomando banho de mangueira com sua sandália de salto plataforma verde-limão, quando percebeu que estava sendo observado por um calango filósofo do alto da galha do pé de goiaba.
Quando menos esperava, ainda absorto em pensamentos e tensão ao observar o calango lhe consumia em olhares, surgiu de uma vez e fazendo grande alarido um ponto final ao seu lado.
O ponto.
Urgia em finalizar a breve existência de tudo, mas Luciwando tentava barganhar em ao menos ponto e vírgula. Implorou por reticências, mas o ponto se mostrava resoluto. Era ponto e ponto final! O ponto era aquela enorme mancha negra em círculo perfeito no chão, por onde entre seus infinitos vazios ecoavam gritos de continuidade amputada. Eram horripilantes. E o calango mudava de cores de acordo com os timbres dos gritos.
Foi então que apareceram diretamente de Natal- RN, professores de cacuriá, dançando sem parar uma dança louca, musicada pelos próprios gritos emanados do ponto, no intuito de diminuí-lo e tentar transformá-lo em nada.
Nada feito. O ponto cresceu. Pôs fim em Luciwando. Um ponto final em sua bio-existência. Pontuou também o calango que tentou se disfarçar de galho.
Eu via tudo da janela da minha cozinha e ao perceber o ponto se aproximando orei de com força para minha melancia musical e suas sementes espalharam-se pelo chão, formando uma passarela que se suspendia do solo e pairava suavemente no ar. Ao subir, semente a semente, as percebi aderindo à minha pele. Senti meus movimentos ficarem lentos gradativamente. E quando dei por mim era uma melancia escritora, que produzia sem parar textos inteiros em seu miolo, sem jamais poder lançá-los ao meio material para compartilhar dos próprios versos.
Todos os outros aspectos e idéias do texto deveriam ser mais explorados, mas o ponto interrompeu o fluxo de tudo.
Como não percebi? A melancia era a armadilha do ponto. Era, na verdade, um grande ponto verde, em cujo interior existiam inúmeros outros pontos pretos numa vastidão vermelha.
Ponto final.
Eu estava sentado em minha cadeira de quatro penas humanas, orando pra uma melancia musical quando de repente o meu cafezinho se transformou em um escravo italiano de sotaque uruguaio.
Luciwando estava no quintal de maiô de estampa de zebra tomando banho de mangueira com sua sandália de salto plataforma verde-limão, quando percebeu que estava sendo observado por um calango filósofo do alto da galha do pé de goiaba.
Quando menos esperava, ainda absorto em pensamentos e tensão ao observar o calango lhe consumia em olhares, surgiu de uma vez e fazendo grande alarido um ponto final ao seu lado.
O ponto.
Urgia em finalizar a breve existência de tudo, mas Luciwando tentava barganhar em ao menos ponto e vírgula. Implorou por reticências, mas o ponto se mostrava resoluto. Era ponto e ponto final! O ponto era aquela enorme mancha negra em círculo perfeito no chão, por onde entre seus infinitos vazios ecoavam gritos de continuidade amputada. Eram horripilantes. E o calango mudava de cores de acordo com os timbres dos gritos.
Foi então que apareceram diretamente de Natal- RN, professores de cacuriá, dançando sem parar uma dança louca, musicada pelos próprios gritos emanados do ponto, no intuito de diminuí-lo e tentar transformá-lo em nada.
Nada feito. O ponto cresceu. Pôs fim em Luciwando. Um ponto final em sua bio-existência. Pontuou também o calango que tentou se disfarçar de galho.
Eu via tudo da janela da minha cozinha e ao perceber o ponto se aproximando orei de com força para minha melancia musical e suas sementes espalharam-se pelo chão, formando uma passarela que se suspendia do solo e pairava suavemente no ar. Ao subir, semente a semente, as percebi aderindo à minha pele. Senti meus movimentos ficarem lentos gradativamente. E quando dei por mim era uma melancia escritora, que produzia sem parar textos inteiros em seu miolo, sem jamais poder lançá-los ao meio material para compartilhar dos próprios versos.
Todos os outros aspectos e idéias do texto deveriam ser mais explorados, mas o ponto interrompeu o fluxo de tudo.
Como não percebi? A melancia era a armadilha do ponto. Era, na verdade, um grande ponto verde, em cujo interior existiam inúmeros outros pontos pretos numa vastidão vermelha.
Ponto final.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Regina! Vamos passear em meu crânio!
Para que seja possível este passeio, um pequeno sacrifício há de ser feito
Está vendo aquela pistola prateada sobre a mesa
Está municiada
Mire no centro de minha testa e efetue o disparo
Não se preocupe
Não irei morrer. Terei apenas uma leve ressaca
E uma dorzinha de cabeça no dia seguinte
Quando a passagem estiver aberta
E o sangue jorrando como oferta
Se arremesse dentro de meu crânio, que no percurso você encolhe o suficiente para passar
Vamos logo, faça o que te digo
Que no caminho eu te explico o motivo da pressa
Vamos entrando aqui bem pelo meio da minha testa
Vem, fecha os olhos e se joga em meu crânio como se fosse para quebrar uma parede de cimento
Atravesse a camada de pele, desvie-se dos vasos sanguíneos, para não se sujar
Vá rompendo estas curvas da massa cinzenta e siga procurando
Lá no centro do encéfalo, eu estarei esperando
Que ansiedade para te ver logo!
Se não chegar rápido, no meio de tanta Stella ainda me afogo!
Aqui!
Feche os olhos para me ver... sinta minha presença, mestra!
De olhos fechados, poderá me reconhecer. E nossa aventura, enfim, poderemos proceder
Como você está linda!
É por aqui, vem me seguindo
Cuidado com esses arbustos cheios de espinhos...
E com esses escorpiões brilhantes no chão também! Veja!
Eles são palavras que me escaparam da boca e deixei cair enquanto conversava com a Ana por aqui neste exato lugar ontem...
Está vendo ali em cima daquela rocha forrada de musgo vermelho?
Acima daquela rocha bem grande existe um prefeito... aquele que odiamos mais do que quase tudo nessa vida.
O vice dele foi engolido pela pedra... está lá no meio dela sendo digerido pela rocha metamórfica. Com a alta temperatura e elevadíssima pressão do interior daquele mineral gigante, ele será transformado em um pudim de sangue, nervos e veias apenas. Vai ficar pronto daqui a pouco, e será um troço bonito de se ver! O diabo é que com essa pressão tão alta lá de dentro a consciência dele jamais abandonará a matéria... e ele vai penar a eternidade no plano material passando por todo tipo de transformação. Vai ser comido por urubus, que serão devorados pelos fungos, que serão incorporados por plantas, que serão comidas por vacas e por fim, devoradas por eleitores famintos em festas eleitoreiras ao som do mais puro lixo sonoro. Aquela manifestação repulsiva feita com violas e duplas de semi-analfabetos que vomitam lamúrias amorosas com rimas pobres e refrões fáceis e gritados. Nessa festa onde ele será devorado por seus eleitores, haverá tábuas de carne por todo lado, banhadas em sangue de churrasco mal passado, gorduras esfriadas em forma de sebo recobrindo com uma camada fina esbranquiçada as mesas e as próprias tábuas. Bandas de limões partidos e espremidos ao lado de copos de cerveja abandonados pela metade, onde sobre a borda descansarão moscas varejeiras. Ainda dentro desses copos, muito provavelmente se encontre restos de cigarros apagados, com cinzas boiando.
Triste sina essa, não é? Acho é pouco. Ele merecia fim bem pior.
O cachorro grande, o prefeito, está em cima da pedra, tomado de uma loucura tão atroz! Lá ele enxerga horripilantes cachorros brancos aqui em baixo, dando incansáveis investidas pedra acima, a fim de poderem pegá-lo e rasgá-lo em vinte! Na fantasia que criaram pra ele, minha amiga, do alto da pedra ele será capaz de ver a própria mãe e a família na iminência da morte, em situação de extremo sofrimento no hospital regional aqui da Luziânia. Do alto da pedra ele verá as paredes lilazes e roxas, sempre impecáveis, do hospital regional, mas verá também que lá não há macas, não há médicos nem remédios, não há equipamentos e os leitos de UTI ele os verá amontoados debaixo da árvore de vidro ali ao lado. Sua visão estará sempre dividida entre o medo de ser lacerado pelos dentes dos cachorros albinos e a piedade impotente de sua mãe e sua família agonizando no corredor sujo do hospital, jogados ao chão como indigentes. Assim, como indigentes mesmo, tal qual se sentem todos os que precisam realmente ir àquele frigorífico propagador da carnificina.
Sabe o que eu acho? Acho é pouco! Apenas como requinte de crueldade, tratei de colocar uma placa bem grande na frente do hospital com os seguintes dizeres: REFORMA E AMPLIAÇÃO DO HOSPITAL REGIONAL DE LUZIÂNIA (MENTIRINHA, FOI APENAS UMA PINTURA): R$55.000.000,00. AQUI O SEU DINHEIRO É BEM EMPREGADO.
Vam’bora, que falta pouco, já tamo chegando. Ainda tem serpentes cruzando nosso caminho, fique ligada! Esse lugar aqui é cheio de perigo! É tudo materialização de pensamentos meus. Isso é uma adrenalina, minha amiga! Tem tanta coisa violenta aqui nesse crânio que você nem imagina. Fico me policiando o tempo todo para que não escapem centenas de hecatombes por minuto.
Fique sempre na trilha e não toque em nada ao redor. É tudo perigoso.
Tá ouvindo o barulho? Tome... são tampões de ouvidos. Vamos passar agora por uma cachoeira de prantos. Num momento de descuido ela me escapou do pensamento e se materializou bem em cima da prefeitura. Ela é enorme. Tem trezentos e noventa e sete Km de altitude. Lá de cima ao invés de água, descem pedaços líquidos de cores, que são memórias de todas as vezes que chorei ou quis chorar de raiva. Essas memórias, quando se desfazem na queda, para renascer no topo da cachoeira novamente, cravejam o ar de estrondos muito mais altos que as explosões que ocorrem no centro da terra. O som de uma só memória poderia partir um ser humano ao meio, feito um raio laser. Use os tampões e não os tire. Contente-se apenas com o espetáculo mudo da cachoeira das memórias sombrias.
Está vendo essa ponte aqui?
Teremos de passar por ela para chegarmos ao local onde quero lhe mostrar. Ela também é uma invenção minha. Risos. Eu a criei da seguinte forma: é uma ponte de madeira, onde para chegar ao outro lado, você terá de empurrar lá para o fundo do precipício as pessoas que aparecerão na sua frente. Fique tranqüila, pois são todas ilusões. Elas aparecerão para te desejar um bom dia, fazer um cumprimento ou estarão simplesmente sentadas à beira da ponte apreciando a paisagem. Empurre-as todas! Só aquele cidadão ali, que você não deve fazer mal algum, pois ele existe mesmo. Eu o trouxe aqui propositalmente e o deixei atravessando a ponte. Ele empurrou a própria mãe, as irmãs, algumas velhinhas e outras pessoas, mas quando se deparou com uma pilha de cédulas de cem reais, não conseguiu empurrá-las daqui e permanece até hoje adulando os maços de dinheiro irreal. Acho, mas não tenho certeza, que o nome dele é... dá uma olhadinha. Você sabe quem é! É o Mão Seca!
Trouxe-o de presente para você.
Regozije-se!
Mas não se demore, porque o que vem a seguir é por demais valioso para perdermos tempo com esta criatura abissal.
Agora que terminamos a ponte, gostaria que você prestasse atenção ao cenário. Este é um corredor um pouco claustrofóbico.
O chão é completamente negro. As paredes laterais são recobertas por espelho e o teto é uma miscelânea de aquarela em movimento que Kandinski nunca dá por finalizada.
Vamos andando depressa, porque as pessoas que te esperam são muito importantes e não seria elegante deixá-las esperando demais.
Pronto. Delicie-se!
Te trouxe aqui para saber o que quiser neste café da manhã.
Está vendo ali pairando no ar aquela mesa enorme forrada com uma manta branca? É uma mesa de café da manhã.
Chegando mais perto, você reconhecerá os rostos dos seus anfitriões. À esquerda está o Preto Velho. Lá na frente, quase de frente pra gente, está a Pomba Gira... se observar bem, perceberá que está nua. Meditando ao lado dela está Buda. Alá vem depois. Ao lado dele Jesus Cristo. De mãos dadas com ele, fazendo uma prece está o Lúcifer. Depois vem Iemanjá, Oxum, Nossa Senhora Aparecida e por fim Exu Caveira.
Aquela consciência que está ao lado do Exu, sem forma humana e de um azul escuro quase hipnotizante é o Infinito.
Queria fazer tantas perguntas a ele!
Agora vá!
Não posso ultrapassar esta fronteira.
Vá e me conte tudo na volta!
Deixe-se ser levada por esta sensação de leveza. Sinta os poros se abrindo e o sentimento próximo ao tato se dilatar por todo este espaço.
Abra seu campo mental, espiritual e sinestésico.
E receba todos os segredos que envolvem nossa existência.
Quando voltar, querida amiga, conte-me todos que lhe permitirem!
Você tem quinze minutos apenas!
Aproveite!
Está vendo aquela pistola prateada sobre a mesa
Está municiada
Mire no centro de minha testa e efetue o disparo
Não se preocupe
Não irei morrer. Terei apenas uma leve ressaca
E uma dorzinha de cabeça no dia seguinte
Quando a passagem estiver aberta
E o sangue jorrando como oferta
Se arremesse dentro de meu crânio, que no percurso você encolhe o suficiente para passar
Vamos logo, faça o que te digo
Que no caminho eu te explico o motivo da pressa
Vamos entrando aqui bem pelo meio da minha testa
Vem, fecha os olhos e se joga em meu crânio como se fosse para quebrar uma parede de cimento
Atravesse a camada de pele, desvie-se dos vasos sanguíneos, para não se sujar
Vá rompendo estas curvas da massa cinzenta e siga procurando
Lá no centro do encéfalo, eu estarei esperando
Que ansiedade para te ver logo!
Se não chegar rápido, no meio de tanta Stella ainda me afogo!
Aqui!
Feche os olhos para me ver... sinta minha presença, mestra!
De olhos fechados, poderá me reconhecer. E nossa aventura, enfim, poderemos proceder
Como você está linda!
É por aqui, vem me seguindo
Cuidado com esses arbustos cheios de espinhos...
E com esses escorpiões brilhantes no chão também! Veja!
Eles são palavras que me escaparam da boca e deixei cair enquanto conversava com a Ana por aqui neste exato lugar ontem...
Está vendo ali em cima daquela rocha forrada de musgo vermelho?
Acima daquela rocha bem grande existe um prefeito... aquele que odiamos mais do que quase tudo nessa vida.
O vice dele foi engolido pela pedra... está lá no meio dela sendo digerido pela rocha metamórfica. Com a alta temperatura e elevadíssima pressão do interior daquele mineral gigante, ele será transformado em um pudim de sangue, nervos e veias apenas. Vai ficar pronto daqui a pouco, e será um troço bonito de se ver! O diabo é que com essa pressão tão alta lá de dentro a consciência dele jamais abandonará a matéria... e ele vai penar a eternidade no plano material passando por todo tipo de transformação. Vai ser comido por urubus, que serão devorados pelos fungos, que serão incorporados por plantas, que serão comidas por vacas e por fim, devoradas por eleitores famintos em festas eleitoreiras ao som do mais puro lixo sonoro. Aquela manifestação repulsiva feita com violas e duplas de semi-analfabetos que vomitam lamúrias amorosas com rimas pobres e refrões fáceis e gritados. Nessa festa onde ele será devorado por seus eleitores, haverá tábuas de carne por todo lado, banhadas em sangue de churrasco mal passado, gorduras esfriadas em forma de sebo recobrindo com uma camada fina esbranquiçada as mesas e as próprias tábuas. Bandas de limões partidos e espremidos ao lado de copos de cerveja abandonados pela metade, onde sobre a borda descansarão moscas varejeiras. Ainda dentro desses copos, muito provavelmente se encontre restos de cigarros apagados, com cinzas boiando.
Triste sina essa, não é? Acho é pouco. Ele merecia fim bem pior.
O cachorro grande, o prefeito, está em cima da pedra, tomado de uma loucura tão atroz! Lá ele enxerga horripilantes cachorros brancos aqui em baixo, dando incansáveis investidas pedra acima, a fim de poderem pegá-lo e rasgá-lo em vinte! Na fantasia que criaram pra ele, minha amiga, do alto da pedra ele será capaz de ver a própria mãe e a família na iminência da morte, em situação de extremo sofrimento no hospital regional aqui da Luziânia. Do alto da pedra ele verá as paredes lilazes e roxas, sempre impecáveis, do hospital regional, mas verá também que lá não há macas, não há médicos nem remédios, não há equipamentos e os leitos de UTI ele os verá amontoados debaixo da árvore de vidro ali ao lado. Sua visão estará sempre dividida entre o medo de ser lacerado pelos dentes dos cachorros albinos e a piedade impotente de sua mãe e sua família agonizando no corredor sujo do hospital, jogados ao chão como indigentes. Assim, como indigentes mesmo, tal qual se sentem todos os que precisam realmente ir àquele frigorífico propagador da carnificina.
Sabe o que eu acho? Acho é pouco! Apenas como requinte de crueldade, tratei de colocar uma placa bem grande na frente do hospital com os seguintes dizeres: REFORMA E AMPLIAÇÃO DO HOSPITAL REGIONAL DE LUZIÂNIA (MENTIRINHA, FOI APENAS UMA PINTURA): R$55.000.000,00. AQUI O SEU DINHEIRO É BEM EMPREGADO.
Vam’bora, que falta pouco, já tamo chegando. Ainda tem serpentes cruzando nosso caminho, fique ligada! Esse lugar aqui é cheio de perigo! É tudo materialização de pensamentos meus. Isso é uma adrenalina, minha amiga! Tem tanta coisa violenta aqui nesse crânio que você nem imagina. Fico me policiando o tempo todo para que não escapem centenas de hecatombes por minuto.
Fique sempre na trilha e não toque em nada ao redor. É tudo perigoso.
Tá ouvindo o barulho? Tome... são tampões de ouvidos. Vamos passar agora por uma cachoeira de prantos. Num momento de descuido ela me escapou do pensamento e se materializou bem em cima da prefeitura. Ela é enorme. Tem trezentos e noventa e sete Km de altitude. Lá de cima ao invés de água, descem pedaços líquidos de cores, que são memórias de todas as vezes que chorei ou quis chorar de raiva. Essas memórias, quando se desfazem na queda, para renascer no topo da cachoeira novamente, cravejam o ar de estrondos muito mais altos que as explosões que ocorrem no centro da terra. O som de uma só memória poderia partir um ser humano ao meio, feito um raio laser. Use os tampões e não os tire. Contente-se apenas com o espetáculo mudo da cachoeira das memórias sombrias.
Está vendo essa ponte aqui?
Teremos de passar por ela para chegarmos ao local onde quero lhe mostrar. Ela também é uma invenção minha. Risos. Eu a criei da seguinte forma: é uma ponte de madeira, onde para chegar ao outro lado, você terá de empurrar lá para o fundo do precipício as pessoas que aparecerão na sua frente. Fique tranqüila, pois são todas ilusões. Elas aparecerão para te desejar um bom dia, fazer um cumprimento ou estarão simplesmente sentadas à beira da ponte apreciando a paisagem. Empurre-as todas! Só aquele cidadão ali, que você não deve fazer mal algum, pois ele existe mesmo. Eu o trouxe aqui propositalmente e o deixei atravessando a ponte. Ele empurrou a própria mãe, as irmãs, algumas velhinhas e outras pessoas, mas quando se deparou com uma pilha de cédulas de cem reais, não conseguiu empurrá-las daqui e permanece até hoje adulando os maços de dinheiro irreal. Acho, mas não tenho certeza, que o nome dele é... dá uma olhadinha. Você sabe quem é! É o Mão Seca!
Trouxe-o de presente para você.
Regozije-se!
Mas não se demore, porque o que vem a seguir é por demais valioso para perdermos tempo com esta criatura abissal.
Agora que terminamos a ponte, gostaria que você prestasse atenção ao cenário. Este é um corredor um pouco claustrofóbico.
O chão é completamente negro. As paredes laterais são recobertas por espelho e o teto é uma miscelânea de aquarela em movimento que Kandinski nunca dá por finalizada.
Vamos andando depressa, porque as pessoas que te esperam são muito importantes e não seria elegante deixá-las esperando demais.
Pronto. Delicie-se!
Te trouxe aqui para saber o que quiser neste café da manhã.
Está vendo ali pairando no ar aquela mesa enorme forrada com uma manta branca? É uma mesa de café da manhã.
Chegando mais perto, você reconhecerá os rostos dos seus anfitriões. À esquerda está o Preto Velho. Lá na frente, quase de frente pra gente, está a Pomba Gira... se observar bem, perceberá que está nua. Meditando ao lado dela está Buda. Alá vem depois. Ao lado dele Jesus Cristo. De mãos dadas com ele, fazendo uma prece está o Lúcifer. Depois vem Iemanjá, Oxum, Nossa Senhora Aparecida e por fim Exu Caveira.
Aquela consciência que está ao lado do Exu, sem forma humana e de um azul escuro quase hipnotizante é o Infinito.
Queria fazer tantas perguntas a ele!
Agora vá!
Não posso ultrapassar esta fronteira.
Vá e me conte tudo na volta!
Deixe-se ser levada por esta sensação de leveza. Sinta os poros se abrindo e o sentimento próximo ao tato se dilatar por todo este espaço.
Abra seu campo mental, espiritual e sinestésico.
E receba todos os segredos que envolvem nossa existência.
Quando voltar, querida amiga, conte-me todos que lhe permitirem!
Você tem quinze minutos apenas!
Aproveite!
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Convite de jantar para Ana.
Venha jantar comigo em minha casa, Ana!
O menu do dia prevê para o prato principal Poesia com Quiabo.
Como guarnição teremos tomates embolorados à milanesa com farinha de canto de sabiá.
Para beber, há uma enorme jarra com água de goteira trufada no mofo, com notas amadeiradas de forro paulista, que podem ser sentidas no palato lateral.
Venha, Ana!
Que o jantar nos espera!
Comeremos em pratos de éter com talheres de solidão metálica.
Ouviremos a hiena enjaulada cantar boleros por toda a noite.
Será maravilhoso!
Celebraremos nossa amizade em grande estilo!
Ainda temos três macacos católicos... façamos um bom tapete!
Com o mel de Deus, entornemos em vodka com sorvete!
Dancemos para a lua sob o grande pé de goiaba.
Haverá alguém nesse mundo alguém que nos condene por nossa loucura?
A pós modernidade sim é que é louca.
Será que só são felizes os doutores?
Quantos livros em alemão teremos de publicar para termos um agradável jantar?
Perceba que a métrica está mudando.
E alguma coisa vai assim rimando.
Coisa estranha essa que vai sincronizando o som.
Vou preparar nosso jantar
Porque se você chegar e nada estiver pronto
Não será de bom tom.
O menu do dia prevê para o prato principal Poesia com Quiabo.
Como guarnição teremos tomates embolorados à milanesa com farinha de canto de sabiá.
Para beber, há uma enorme jarra com água de goteira trufada no mofo, com notas amadeiradas de forro paulista, que podem ser sentidas no palato lateral.
Venha, Ana!
Que o jantar nos espera!
Comeremos em pratos de éter com talheres de solidão metálica.
Ouviremos a hiena enjaulada cantar boleros por toda a noite.
Será maravilhoso!
Celebraremos nossa amizade em grande estilo!
Ainda temos três macacos católicos... façamos um bom tapete!
Com o mel de Deus, entornemos em vodka com sorvete!
Dancemos para a lua sob o grande pé de goiaba.
Haverá alguém nesse mundo alguém que nos condene por nossa loucura?
A pós modernidade sim é que é louca.
Será que só são felizes os doutores?
Quantos livros em alemão teremos de publicar para termos um agradável jantar?
Perceba que a métrica está mudando.
E alguma coisa vai assim rimando.
Coisa estranha essa que vai sincronizando o som.
Vou preparar nosso jantar
Porque se você chegar e nada estiver pronto
Não será de bom tom.
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