Para que seja possível este passeio, um pequeno sacrifício há de ser feito
Está vendo aquela pistola prateada sobre a mesa
Está municiada
Mire no centro de minha testa e efetue o disparo
Não se preocupe
Não irei morrer. Terei apenas uma leve ressaca
E uma dorzinha de cabeça no dia seguinte
Quando a passagem estiver aberta
E o sangue jorrando como oferta
Se arremesse dentro de meu crânio, que no percurso você encolhe o suficiente para passar
Vamos logo, faça o que te digo
Que no caminho eu te explico o motivo da pressa
Vamos entrando aqui bem pelo meio da minha testa
Vem, fecha os olhos e se joga em meu crânio como se fosse para quebrar uma parede de cimento
Atravesse a camada de pele, desvie-se dos vasos sanguíneos, para não se sujar
Vá rompendo estas curvas da massa cinzenta e siga procurando
Lá no centro do encéfalo, eu estarei esperando
Que ansiedade para te ver logo!
Se não chegar rápido, no meio de tanta Stella ainda me afogo!
Aqui!
Feche os olhos para me ver... sinta minha presença, mestra!
De olhos fechados, poderá me reconhecer. E nossa aventura, enfim, poderemos proceder
Como você está linda!
É por aqui, vem me seguindo
Cuidado com esses arbustos cheios de espinhos...
E com esses escorpiões brilhantes no chão também! Veja!
Eles são palavras que me escaparam da boca e deixei cair enquanto conversava com a Ana por aqui neste exato lugar ontem...
Está vendo ali em cima daquela rocha forrada de musgo vermelho?
Acima daquela rocha bem grande existe um prefeito... aquele que odiamos mais do que quase tudo nessa vida.
O vice dele foi engolido pela pedra... está lá no meio dela sendo digerido pela rocha metamórfica. Com a alta temperatura e elevadíssima pressão do interior daquele mineral gigante, ele será transformado em um pudim de sangue, nervos e veias apenas. Vai ficar pronto daqui a pouco, e será um troço bonito de se ver! O diabo é que com essa pressão tão alta lá de dentro a consciência dele jamais abandonará a matéria... e ele vai penar a eternidade no plano material passando por todo tipo de transformação. Vai ser comido por urubus, que serão devorados pelos fungos, que serão incorporados por plantas, que serão comidas por vacas e por fim, devoradas por eleitores famintos em festas eleitoreiras ao som do mais puro lixo sonoro. Aquela manifestação repulsiva feita com violas e duplas de semi-analfabetos que vomitam lamúrias amorosas com rimas pobres e refrões fáceis e gritados. Nessa festa onde ele será devorado por seus eleitores, haverá tábuas de carne por todo lado, banhadas em sangue de churrasco mal passado, gorduras esfriadas em forma de sebo recobrindo com uma camada fina esbranquiçada as mesas e as próprias tábuas. Bandas de limões partidos e espremidos ao lado de copos de cerveja abandonados pela metade, onde sobre a borda descansarão moscas varejeiras. Ainda dentro desses copos, muito provavelmente se encontre restos de cigarros apagados, com cinzas boiando.
Triste sina essa, não é? Acho é pouco. Ele merecia fim bem pior.
O cachorro grande, o prefeito, está em cima da pedra, tomado de uma loucura tão atroz! Lá ele enxerga horripilantes cachorros brancos aqui em baixo, dando incansáveis investidas pedra acima, a fim de poderem pegá-lo e rasgá-lo em vinte! Na fantasia que criaram pra ele, minha amiga, do alto da pedra ele será capaz de ver a própria mãe e a família na iminência da morte, em situação de extremo sofrimento no hospital regional aqui da Luziânia. Do alto da pedra ele verá as paredes lilazes e roxas, sempre impecáveis, do hospital regional, mas verá também que lá não há macas, não há médicos nem remédios, não há equipamentos e os leitos de UTI ele os verá amontoados debaixo da árvore de vidro ali ao lado. Sua visão estará sempre dividida entre o medo de ser lacerado pelos dentes dos cachorros albinos e a piedade impotente de sua mãe e sua família agonizando no corredor sujo do hospital, jogados ao chão como indigentes. Assim, como indigentes mesmo, tal qual se sentem todos os que precisam realmente ir àquele frigorífico propagador da carnificina.
Sabe o que eu acho? Acho é pouco! Apenas como requinte de crueldade, tratei de colocar uma placa bem grande na frente do hospital com os seguintes dizeres: REFORMA E AMPLIAÇÃO DO HOSPITAL REGIONAL DE LUZIÂNIA (MENTIRINHA, FOI APENAS UMA PINTURA): R$55.000.000,00. AQUI O SEU DINHEIRO É BEM EMPREGADO.
Vam’bora, que falta pouco, já tamo chegando. Ainda tem serpentes cruzando nosso caminho, fique ligada! Esse lugar aqui é cheio de perigo! É tudo materialização de pensamentos meus. Isso é uma adrenalina, minha amiga! Tem tanta coisa violenta aqui nesse crânio que você nem imagina. Fico me policiando o tempo todo para que não escapem centenas de hecatombes por minuto.
Fique sempre na trilha e não toque em nada ao redor. É tudo perigoso.
Tá ouvindo o barulho? Tome... são tampões de ouvidos. Vamos passar agora por uma cachoeira de prantos. Num momento de descuido ela me escapou do pensamento e se materializou bem em cima da prefeitura. Ela é enorme. Tem trezentos e noventa e sete Km de altitude. Lá de cima ao invés de água, descem pedaços líquidos de cores, que são memórias de todas as vezes que chorei ou quis chorar de raiva. Essas memórias, quando se desfazem na queda, para renascer no topo da cachoeira novamente, cravejam o ar de estrondos muito mais altos que as explosões que ocorrem no centro da terra. O som de uma só memória poderia partir um ser humano ao meio, feito um raio laser. Use os tampões e não os tire. Contente-se apenas com o espetáculo mudo da cachoeira das memórias sombrias.
Está vendo essa ponte aqui?
Teremos de passar por ela para chegarmos ao local onde quero lhe mostrar. Ela também é uma invenção minha. Risos. Eu a criei da seguinte forma: é uma ponte de madeira, onde para chegar ao outro lado, você terá de empurrar lá para o fundo do precipício as pessoas que aparecerão na sua frente. Fique tranqüila, pois são todas ilusões. Elas aparecerão para te desejar um bom dia, fazer um cumprimento ou estarão simplesmente sentadas à beira da ponte apreciando a paisagem. Empurre-as todas! Só aquele cidadão ali, que você não deve fazer mal algum, pois ele existe mesmo. Eu o trouxe aqui propositalmente e o deixei atravessando a ponte. Ele empurrou a própria mãe, as irmãs, algumas velhinhas e outras pessoas, mas quando se deparou com uma pilha de cédulas de cem reais, não conseguiu empurrá-las daqui e permanece até hoje adulando os maços de dinheiro irreal. Acho, mas não tenho certeza, que o nome dele é... dá uma olhadinha. Você sabe quem é! É o Mão Seca!
Trouxe-o de presente para você.
Regozije-se!
Mas não se demore, porque o que vem a seguir é por demais valioso para perdermos tempo com esta criatura abissal.
Agora que terminamos a ponte, gostaria que você prestasse atenção ao cenário. Este é um corredor um pouco claustrofóbico.
O chão é completamente negro. As paredes laterais são recobertas por espelho e o teto é uma miscelânea de aquarela em movimento que Kandinski nunca dá por finalizada.
Vamos andando depressa, porque as pessoas que te esperam são muito importantes e não seria elegante deixá-las esperando demais.
Pronto. Delicie-se!
Te trouxe aqui para saber o que quiser neste café da manhã.
Está vendo ali pairando no ar aquela mesa enorme forrada com uma manta branca? É uma mesa de café da manhã.
Chegando mais perto, você reconhecerá os rostos dos seus anfitriões. À esquerda está o Preto Velho. Lá na frente, quase de frente pra gente, está a Pomba Gira... se observar bem, perceberá que está nua. Meditando ao lado dela está Buda. Alá vem depois. Ao lado dele Jesus Cristo. De mãos dadas com ele, fazendo uma prece está o Lúcifer. Depois vem Iemanjá, Oxum, Nossa Senhora Aparecida e por fim Exu Caveira.
Aquela consciência que está ao lado do Exu, sem forma humana e de um azul escuro quase hipnotizante é o Infinito.
Queria fazer tantas perguntas a ele!
Agora vá!
Não posso ultrapassar esta fronteira.
Vá e me conte tudo na volta!
Deixe-se ser levada por esta sensação de leveza. Sinta os poros se abrindo e o sentimento próximo ao tato se dilatar por todo este espaço.
Abra seu campo mental, espiritual e sinestésico.
E receba todos os segredos que envolvem nossa existência.
Quando voltar, querida amiga, conte-me todos que lhe permitirem!
Você tem quinze minutos apenas!
Aproveite!
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