terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu quero uma pamonha dos Estados Unidos!

POTILENE: Ô mãe! Manhê...
MÃE: Oi, filha?
POTILENE: Eu queria uma pamonha dos Estados Unidos.
MÃE: Mas minha filha, de onde você tirou essa idéia?
POTILENE: Todas as minhas amigas vão almoçar pamonhas dos Estados Unidos hoje na casa da Rosylene Mephysta! Eu quero minha pamonha dos Estados Unidos, mãe!
MÃE: mas, meu anjo, pense bem! Como é que eu vou arrumar uma pamonha dos Estados Unidos ainda a tempo do almoço?
POTILENE: Não sei, mãe, mas eu quero a pamonha dos Estados Unidos, mãe, pelo amor do Windows, busca mãe... a minha pamonha dos Estados Unidos!
MÃE: Meu anjo, mamãe não fez programas suficientes este mês pra poder gastar com regalias assim... Criei um site, pra um louco escritor, que queria publicar seus textos online e fiz dois programas para uma rede de farmácias. A grana tá curta, meu amor. Esse mês vai passar sem pamonha dos Estados Unidos mesmo.
POTILENE (irritadíssima, começando a chorar):Mas mãe, eu preciso de uma pamonha dos Estados Unidos! Duas! Eu quero é duas pamonhas dos Estados Unidos!
MÃE: Cala-a-boca-e-sai-daqui!
POTILENE: Eu preciso! Eu preciso!
MÃE: Vem aqui, minha querida.
POTILENE (achegando-se à mãe, em tom de resmungo): O que foi?
MÃE (levantando a blusa e o sutiã):Tá vendo essas tetonas aqui sem auréola?
POTILENE(ainda triste): Sim, mãe.
MÃE: vá até o quintal e veja o que eu trouxe para você, Polinete!
POTILENE(alegrando-se): É Potilene, mãe!
MÃE: Isso...Potilene...
POTILENE(abrindo a porta da cozinha): O que é que tem aqui, mãe?
MÃE: UM ABACATEIRO COM PRIAPISMO!
POTILENE: Pode ser meu, mãe?
MÃE: Claro, meu anjo!
POTILENE(chorando de emoção):Não sei nem o que dizer, mãe!
MÃE: Não precisa, querida!
POTILENE: Mae... eu tenho um presente pra senhora também!
MÃE: Mesmo?
POTILENE: Sim.
MÃE: O que é, vida minha!?
POTILENE: Tá vendo esta plantinha aqui do lado do abacateiro com priapismo?
MÃE: Oh, my God!
POTILENE: É sua!
MÃE(chorando aos soluços): Jamais poderei agradecer ao que você fez por mim, Polinete!
POTILENE: É Potilene, mãe!
MÃE: Isso...
MÃE: Minha querida... o que é isso daqui mesmo?
POTILENE: É um pé de bico de peito, mãe!
MÃE(muito feliz): Que lindo, minha filha, que lindo! Como conseguiu?
POTILENE: Não importa. É seu! E vai florescer em 30 segundos.
MÃE(olhando atentamente para a planta): É lindo! (estendendo o braço e mostrando-o) Olha aqui! Tô toda arrepiada!
POTILENE: Só tem uma coisa: são bicos de seios do Belém do Pará, porque os de Brasília eram muito mais caros.
MÃE: Não tem problema, minha filha, não precisamos nos preocupar com a origem das coisas, mas apenas com o que elas são. Você por exemplo, é fruto do acaso. Eu estava andando sem calcinha pela rua toda distraída, quando tropecei e caí com a vagina bem em cima de um preservativo sujo. E pra quê filha melhor do que você? Você é meu orgulho! Você é a vontade de Deus materializada em minha vida, palavra do senhor que se confirma no tombo!


As duas entraram em casa. A Mãe retirou cinco pamonhas dos Estados Unidos de dentro de uma caixa de sapato que estava em cima do forro, num esconderijo. Jantaram felizes como na primeira infância de Potilene e saborearam maravilhosas pamonhas dos Estados Unidos com salada de bico de peito com pimentões amarelos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Batismo ou Maura Traz!

Eram 15h quando Rodrigo chegou em casa. Ele morava sozinho e tinha por hábito receber os amigos aos finais de semana. Os amigos mais íntimos freqüentavam sua casa durante a semana, depois do expediente de trabalho, após as 18h.
Eram 15h quando Mãe Zúh chegou em casa. Ela era dona de um cabaré e tinha por hábito conferir o andamento da casa por completo, conferindo a limpeza do local e as condições de saúde e bem-estar das meninas, das meninas trans e dos meninos também. Recebia os clientes aos finais de semana. Somente os clientes mais ricos freqüentavam a casa durante a semana, após as 18h.
Eram 15h quando Maura, a católica, chegou em casa. Ela era casada e tinha um casal de filhos. Maura era membro da comunidade católica Chantilly de Deus e gostava de receber seus amigos católicos aos finais de semana em sua casa. Somente os amigos mais santos freqüentavam sua casa durante a semana, após as 18h, depois das orações.
Eram 15h quando o relógio decidiu que não iria mais trabalhar.
O tempo parou.
O sol continuou no centro de seu sistema emitindo luz e muito calor, mas os planetas paralisaram-se todos abruptamente. Os movimentos de rotação e translação foram interrompidos de uma só vez. As paredes negras e refletoras, feitas de velatum, que fecham a caixa do universo, de modo a pensarmos ser ele infinito quando vemos o espelho negro, trincaram. Por entre estas rachaduras, passava uma luz diferente de todas as outras que já se viu, estudou ou se supôs no planeta Terra. Perto desses raios brancos lancinantes, o sol mais parecia uma imensa bola de sombra. A humanidade se deu conta de que era apenas um pequeno bolor que habitava uma migalha microscópica de alimento, deixada como resíduo no bolso de um gigante calastrévico.
Às 15h, quando a terra parou seus movimentos, as leis da inércia arrancaram mares inteiros de seus fundos arenosos. Prédios e enormes edifícios foram arremessados com violentíssima força, a ermo, pela atmosfera terrestre. No céu viam-se baleias se estilhaçarem nas hélices de helicópteros ao se chocarem. Aviões colidiam frontalmente com carretas carregadas de soja em grãos a trinta metros do chão. Um velho quebrou um prédio inteiro, andar por andar, ao ser arremessado pelas leis da inércia contra o Supremo Tribunal Funesto. Em Brasília, a fábrica de tintas Cegheira Daltônika explodiu suas caldeiras de processamento de pigmentos. Trilhares de litros de tintas de várias cores voaram pelo ar. O azul desapareceu em meio do céu. Branco, rosa e amarelo, trançaram-se em linha reta pelas ruas estabelecendo-se suspensas no ar, de modo que os transeuntes desesperados correndo e sendo arremessados para todas as direções, ao atravessarem a faixa tintas trançadas imiscíveis entre si, saíam multicoloridos no clima do desespero apocalíptico.
Eram 15h quando se passaram 6h e 27min desde às 15h e ainda assim, eram 15h. Acontece que o relógio não trabalhava. Estava resoluto a não mover um ponteiro sequer. Nem mesmo um segundo, um centésimo ou um milésimo.
Eram 15h quando Rodrigo viu entrar pela janela de sua casa Mãe Zúh, suas meninas, suas meninas trans e seus meninos. Estes de sunga branca, besuntados de óleo paixão, fazendo poses de competições fisiculturistas. As meninas trans, mais musculosas que os rapazes fisiculturistas besuntados de óleos florais, carregavam numa liteira de prata cinco baldes de sangue fresco, recém colhido das feridas purulentas de dez estigmatas roucos de um mosteiro em Abadiânia-GO.
Maura, sua família e seus amigos santos eram trazidos pelas meninas de Zúh, amarradas em coleiras. Maura, seus familiares e seus amigos santos, hipocritamente santos, trajavam, todos, lingeries e calcinhas comestíveis. Estavam descalços. As lingeries eram muito pequenas para os homens, de modo que seus testículos ficavam marcadamente divididos um para cada lado, pendendo para fora da peça íntima com seus pêlos e excessos de pele à mostra. Um deles estava com chato pubiano. Havia sido transmitido pelo padre na sacristia, antes de um batismo de domingo.
A respeito deste batismo faço aqui uma breve incursão a fim de elucidar a importância do evento. Tratava-se do meu batismo. Como ainda era pagão, tendo sido apenas batizado com água benta na pia batismal após o nascimento, resolvi que seria a hora de me purificar e cumprir com tão belo rito! Mandei importar uma travesti de Veneza, na Itália, para me batizar na pia batismal que ficava na lateral da igreja, que conservava suas formas originais, com uma nave central e duas capelas laterais. A travesti chegou vestida com um vestido de plástico transparente. Seu pênis semi-ereto exalava um calor e umidade que embaçava o plástico que recobria a parte que o cobria. O nome da travesti era Béssio. Ela gostava de ser tratada com os pronomes pessoais de tratamento no feminino, apesar de manter seu nome masculino. Nós então a chamávamos de “a” Béssio. Chegada a hora do rito, ajoelhei-me em frente ao púlpito, a Béssio estava soberana de tetas arregaçadas para fora do vestido de plástico fino, em cima do púlpito, olhando ininterrupta para o vão de cadeiras vazias que havia em sua frente, como se visse além daquilo que se pode ver com os olhos de carne. Quando o padre saiu da sacristia, reverenciou a Béssio, fez o sinal da cruz, acendeu uma bolsinha que soltava fumaça e correu feito uma gazela baleada na coluna ao redor de mim e da Béssio. Com um bisturi em mãos, fez uma incisão lateral abaixo das costelas ao meu lado direito e repetiu o procedimento do outro lado. Introduziu em cada um dos furos uma vela com formato de crucifixo, mas ao invés de parafina, era constituída de chocolate bento. A parte central da vela em forma de cruz assemelhava-se a um pênis, com direito a uma glande na extremidade de baixo. Acendeu as velas de chocolate e apagou todas as luzes da igreja, permanecendo apenas as luzes bruxuleantes das velas de chocolate meladas de sangue que estavam abaixo das minhas costelas e um canhão seguidor iluminando a Béssio, que começou a cantar a ave-maria em latim, aramaico e grego. Suas notas agudas, ressoavam e reverberavam pelas paredes da igreja. Ao fim das canções poliglotas, Béssio começou a espremer os mamilos e um jorro de leite foi lançado em minha face. Eu estava sendo banhado pelo leite das tetas de silicone da travesti de Veneza, que a esta altura estava cantando Lata d’água na cabeça, de Elza Soares. Findado o ritual, eu já pertencia ao reino dos réus, com direito a leite de travesti, chocolate, pavio e fósforos queimados como resíduos pelo chão.
Voltando ao que acontecia na casa de Rodrigo exatamente às 15h, Mãe Zúh e suas meninas, meninas trans e meninos, entraram pela janela com um séquito de meninas trans trazendo Maura católica e seus familiares e amigos conduzidos por coleiras de catolissismo: um material usado no fabrico de instrumentos de tortura desde a Idade Média até os dias atuais. Foram todos, com exceção de Maura, apeados aos pés da mesa da sala de jantar. Rodrigo acendeu sete velas vermelhas na frente de uma parede também vermelha e rezou sete salve rainhas. Da parede saiu um exu, todo feito em ossos, segurando o próprio crânio nas mãos, trajando um delicado manto vermelho; no lugar dos pés havia línguas de fogo negro, que lambiam avidamente os detritos disponíveis para combustão. Maura ficou paralisada diante do que estava vendo. Permaneceu petrificada enquanto lágrimas de pus vertiam de seus olhos a jorros fartos. Pomba gira apareceu totalmente nua e sentou-se numa cadeira próxima à mesa onde estavam amarrados os entes queridos de Maura, por meio das coleiras de catolissismo. Já parece tarde para descrever um pouco do que Maura era, mas ainda cabe dizer que tinha olhar de profunda hipocrisia e sofrimento quase crível no semblante desenhado pelas ondulações de seus cabelos cor de burguesia falida: leia-se luzes na cor palha. Todos esperaram pacientemente pelo último membro que presidiria a sessão de cura e libertação. Era o próprio Rodrigo que faltava. Rodrigo chegou em casa, dando de cara com toda aquela situação e assustando-se ao ver seu duplo, o outro Rodrigo, assumir e conduzir aquela situação em sua casa. A presença do Rodrigo original diluiu a do outro Rodrigo e este se desfez no ar, com cara de tristeza.
Sentaram-se à mesa, Rodrigo, Exú Caveira, Mãe Zúh e Pomba Gira. Explicaram a Maura como seria o rito de cura. Cada um dos membros da mesa pensaria em algo, imaginariam esta coisa em seus mais peculiares detalhes, como por exemplo, uma bola de gude rosa choque, que tenha pertencido a apenas uma criança de sete anos, com três arranhões cujas extremidades prolongadas formassem um triângulo isósceles, que tivesse sido fabricada pelas vidraçarias egípcias, por um funcionário solteiro, de 29 anos que morasse no Cairo. Maura havia entendido o espírito da paradinha lá. Quando algum dos membros da mesa gritasse o comando: “Maura Traz!”, ela deveria adivinhar o objeto ou a coisa pensada pelo membro da mesa, sair correndo para conseguir trazer isso à casa de Rodrigo em menos de vinte minutos a coisa ou objeto. A realidade do mundo lá fora, infelizmente não era das mais favoráveis para que Maura obtivesse êxito em suas tarefas hercúleas. Além dos graves problemas causados pela interrupção dos movimentos de rotação e translação dos planetas do sistema solar, com as rachaduras nas paredes do universo, algumas criaturas espirituais, de perversidade até então desconhecida pela humanidade, haviam passado para o lado de cá e assombravam o planeta com uma fome de pânico jamais vista.
Exu Caveira, num rompante, quebrando o silêncio, disse gritando com sua voz áspera: Maura Traz!
Maura saiu correndo desesperadamente a fim de cumprir sua tarefa, desviou de seis elefantes e uma lesma que atravessaram seu caminho, andando descalça por mar, terra, pedras e fogo e conseguiu trazer a Exu o objeto pensado.
Exu Caveira: Maura Traz!
Pomba Gira: Maura Traz!
Rodrigo: Maura Traz!
Mãe Zúh: Maura Traz!
E Maura seguia adivinhando e buscando os objetos.
Nada havia sido dito a este respeito, mas Maura temia que se não conseguisse trazer os objetos pedidos, seus entes queridos, amigos e familiares, seriam mortos de um a um.
Numa das suas infinitas corridas para buscar um objeto, desta vez, solicitado por Rodrigo, Maura atentou-se para o fato de que o tempo havia parado. E que, inclusive, todas as formas de medição de tempo estavam impossibilitadas de serem feitas por aparelhos, cronômetros e relógios digitais ou analógicos.
Sentou-se para descansar sob a sombra de uma lula gigante que pairava morta suspensa do ar, gotejando gotas advindas do processo de autólise, e rezou: Senhor Deus, Pai de misericórdia, oh senhor! Tu, oh, pai, podes saber do que estou passando e bem podes me socorrer neste momento de aflição. Senhor eu sei que somente tu sabes, oh pai, o que é de melhor para minha vida, senhor, e que só a tua sabedoria, pai de amor, é que pode me guiar neste calvário que o inimigo plantou em meu caminho, senhor! Te peço, oh, pai, que o pau nosso de cada noite não falte em minha cama e que meus filhos sejam privados de suas vidas, oh Senhor, o mais breve possível, oh pai, para que não se contaminem com aquelas entidades do espiritismo, da macumbaria, da feitiçaria e de todo o mal. Livra-os, Pai de amor, senhor de misericórdia, Rei dos Reis, shinohara de odolumbalaiê catericram, odoiara chantarialaricatassuia, RO ri maré tarudilibandaluê! Ôria...cân-ta-la-ma-ra-ca-ri cântari!” e se demorou por bastante tempo orando em línguas até adormecer. O estranho é que jamais Maura houvera recebido com língua de oração o idioma russo, inglês, alemão ou mandarim. Apenas as sílabas pré-estabelecidas. Acordou de súbito em frente à mesa com Rodrigo, Mãe Zúh, Exu caveira e Pomba Gira, mas havia encolhido. Estava cinqüenta por cento menor em todas as proporções. Somente sua consciência havia aumentado e seu sofrimento também. Ao tentar se movimentar, percebeu que estava com os movimentos pesados. Maus difíceis de serem executados.
Seus entes queridos estavam agora de pé, sem as coleiras de catolissismo. E já tinham um aspecto um pouco mais digno que a escravidão doutrinária os impunha.
Maura tentou driblar o sistema sete vezes. Na sétima, seu corpo não possuía mais que 25 centímetros de altura.
Seus entes queridos haviam sido libertados das correntes de catolissismo, esse material danoso; mas sobretudo, haviam sido libertados dela e puderam ser felizes e livres como bem entendessem. Havia tempo suficiente para isso, pois o tempo estava parado.
Com sua estatura tão reduzida e seus movimentos totalmente paralisados, nem mesmo suas pálpebras podiam se mover, Maura havia sido transformada em imagem de santa. Santa Maura. De tempos em tempos ela gritava por dentro de dor, quando era chegada a época de restauração. Acontece que seus entes familiares, orgulhosos de ter uma santa na família e libertos das coleiras de catolissismo, se abriram ao politeísmo, e em um mesmo altar, jazia viva paralisada a imagem da mãe deles, uma imagem de Buda, uma de Iemanjá, símbolos orientais, uma imagem de Padre Cícero e vários vidrinhos bonitos com sal grosso e incenso queimando. A fumaça dos incensos e das muitas velas que eram colocadas para queimar se impregnavam em Maura, que era tida como imagem sacra, e freqüentemente ela era submetida a sessões de limpeza e restauração. Ela sentia muitas dores quando as pinças pontiagudas eram passadas em seus olhos para retirar fuligem das pálpebras; mas o que mais doía mesmo eram os intermináveis processos de lixar e depois envernizar.
Um dia, às 15h, os filhos de Maura acordaram com a casa fedendo muito. Era como se um animal, um roedor, algum animal de pequeno porte houvesse morrido e estivesse a putrefar a céu aberto nas imediações da casa. Quando foram fazer uma oração a Bob Marley, os filhos de Maura perceberam que a imagem da mãe deles havia caído do altar e estava mole sobre o chão. Perceberam que ela havia morrido às 15h, no mesmo horário em que Jesus. Ficaram orgulhosos do feito da mãe e a colocaram num vidro com formol. Acontece que a Maura não havia abandonado a sensibilidade do corpo e passou a eternidade sentindo os ardores do líquido corroendo por todos os orifícios de seu corpo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Telegrama fatídico

Era uma tarde de uma calorosa sexta-feira e eu estava arrumando os livros na estante.
Às 15h o carteiro bateu à porta.
Dizia o telegrama: “Deus suicidou-se”.
O Sindicato dos Santos e imagens entrou com uma ação civil contra o protestantismo.
A comunidade goiana Chantilly de Deus preparava a censura da mídia e as secretárias esfolavam as cabeças dos seus dedos digitando sem parar os arquivos que comporiam o novo índex.
Guardei o telegrama no bolso e apaguei o sol com uma gota de orvalho.
Vamos ter de esperar o luto passar e parir outro deus a fórceps.
Enquanto isso, tragam-me uma blusa de frio, mais café e outro livro de poemas do Quintana, por favor.

Fim de relacionamento

Sequei meus olhos com guardanapos feitos de fibra e sementes de pimenta malagueta, enquanto ouvia o Riso e a Faca, de Tom Zé.
A sanidade passou por mim impetuosa, deu-me um forte empurrão e saiu batendo a porta da frente.
A loucura tinha acabado de tomar banho, ainda bem cheirosa, sentou-se ao meu lado e me serviu um chá de cogumelos silvestres.

Pensando.

Mel elétrico
Sal histérico
Barro de morango
Casa de vapor
Vento de madeira espalha brisa de farpas que deslizam e penetram a pele
A menina de plástico comprou uma boneca de carne
Criança de açúcar, mãe dietética, pai de foto
Vodka de gilete, goles de rasgos
Água de cordas
Um gato de feixes
Outro de peixes
Um balde de angústias
E eu ainda não tomei o meu remédio...

Pausa para o café.

Estava ouvindo Elis Regina enquanto tomava um café e notei que a tampa do adoçante havia sumido. Gosto muito de Gal também.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Paralaxe transdimensional ou o curioso caso de Maurício

Era noite de sexta feira e Maurício estava em casa sozinho lutando bravamente contra os convites dos amigos para sair, pois tinha que terminar dois trabalhos e uma lista de exercícios do pesado curso de engenharia civil. Cursava o sétimo semestre. Ele morava sozinho e recebia com freqüência a visita de amigos.
Como de costume, estava com a mesa da cozinha cheia de livros, o celular e uma garrafa de café com uma caneca prateada ao lado. Eram os companheiros de madrugada.
Por volta das onze horas da noite bateram ao portão. O portão era recém colocado, de modo que o acabamento não havia sido feito ainda. Havia uma fresta entre o portal e o muro, de aproximadamente cinco centímetros, de modo que mesmo sem abri-lo era possível que as pessoas de fora e de dentro se vissem antes que o portão fosse aberto. Pensando ser um de seus amigos, Maurício se dirigiu até o portão aceleradamente, com o molho de chaves à mão, quando de repente parou sem entender. Era uma pessoa estranha. Um homem, de aparentemente 28 anos, nem gordo nem magro, branco, alto, usava boné preto com a aba voltada para trás e tinha uma expressão que misturava as sensações de perigo, desejo e aventura.

MAURÍCIO: Pois não?
ESTRANHO: Olá, boa noite!
MAURÍCIO: Boa noite...
ESTRANHO: É aqui que mora o Kleytinho?
MAURÍCIO: Não, não...
ESTRANHO: É... Kleytinho. Kleytinho, vc não conhece nenhum Kleytinho?
MAURÍCIO: Não, cara, acho que você deve ter errado o endereço (disse voltando para dentro).
ESTRANHO: Ei! Espere um pouco (disse em tom meio ousado, meio tímido)!
MAURÍCIO: O que foi?
ESTRANHO: É que... bem... por acaso não é aqui que mora um cara que gosta de homem?
MAURÍCIO: E o que é que tem isso?
ESTRANHO: É você que mora aqui?
MAURÍCIO: Não estou entendendo, cara. Que perguntas são estas?
ESTRANHO: Você mora aqui sozinho?
MAURÍCIO: Desculpe, isso não lhe interessa. Não estou entendendo o motivo de suas
perguntas.
ESTRANHO: Você curte homem?
MAURÍCIO: Oque é que isso tem a ver?
ESTRANHO(segurando seu membro semi rijo): Não posso entrar para conversarmos mais à vontade?
MAURÍCIO: Desculpa aí, cara, mas aqui não tem ninguém com o perfil que você está procurando não.

Feito isso, Maurício deu alguns passos para traz e ficou observando o estranho. Antes de se afastar do portão de Maurício, o estranho fixou o olhar nele, analisando-o de cima a baixo. Maurício sentiu-se violentado com aquele olhar, mas nada fez, pois temia que os rumos daquela conversa pudessem exaltar o ânimo do estranho, fazendo-o sacar uma possível arma e acabar tudo em tragédia. Cerca de dois minutos depois o estranho afastou-se o quanto pôde andando de costas, sem retirar o olhar de Maurício. Entrou num carro prateado e foi embora praticamente sem acelerar o carro, para que o contato visual durasse o máximo possível.
Maurício estava com os olhos ardendo e paralelamente aos pensamentos e sensação de medo, também se lembrava das louças sujas sobre a pia, e temia receber alguma visita ainda naquela noite, pois teria vergonha do estado de bagunça da cozinha. Pensou em seu notebook ligado sobre a mesa e teve preguiça quando lembrou que teria que fazer login novamente caso o computador tivesse entrado em modo de espera ou ativado a proteção de tela. Ele acompanhou o carro com os olhos até quando foi possível fazer pela fresta entre o muro de sua casa e o portão. Quando não havia nem mais barulho do motos do carro com o ser estranho que acabara de lhe incomodar, ele virou-se para trás a fim de entrar novamente em casa, trancar tudo e terminar sua lista de exercícios. Também pensava em fazer um café novinho. Estava com vontade. Quando se virou para entrar, teve uma grande surpresa: a porta não estava mais lá. A parte da frente da sala era toda parede agora. Sem janelas e sem porta. Tudo branco. Olhou por toda a extensão da fachada de sua casa e percebeu que toda ela havia se transfigurado em uma contínua parede branca. Cada vez mais ele tinha um sentimento muito forte de irrealidade, pois não acreditava que tudo aquilo poderia ser real. Pensava também em como seria engraçado e emocionante poder contar tudo isso para seus amigos depois que tudo tivesse terminado. Principalmente a Anha e o Meuquíades.
Tateou com força a parede branca procurando alguma falha que revelasse o truque. A consistência era a de uma parede normal, mas era gelado como mármore. Quando viu que não era um truque, Maurício olhou para trás com o intuito de poder sair e chamar alguma pessoa conhecida para poder compartilhar aquele momento surreal, mas ao se virar teve outra enorme surpresa: o portão havia sumido; o muro estava muito mais alto e branco, extremamente branco, mas assim como as paredes da casa, estava gelado como mármore, mas áspero como só as paredes rebocadas e pintadas com cal o sabem ser.
O muro estava imensamente alto, sem qualquer comunicação com o mundo externo. Olhando para o céu, Maurício percebeu que o muro fazia divisa com o céu, que havia ficado misteriosamente todo branco, com nuvens brancas também, perceptíveis apenas por causa das variações de tons escurecidos entre cirros e nimbos.
Olhando para o céu branco de nuvens esparsas sem estrelas, sentiu a alma gelar. Quando olhou a seu redor, as paredes haviam inexplicavelmente se aproximado muito dele. Toda a área da frente da casa havia diminuído muito de modo que sua claustrofobia e sem medo estavam mortalmente aguçados. Percebendo estar sendo observado, girou ao redor do ambiente, que ao final do giro completo pareceu menor ainda, e percebeu que havia alguém no canto da parede branca. Vestido exatamente como um ninja sem que qualquer parte do seu corpo pudesse ser vista, todo envolto em roupas e bandagens brancas.
Sentiu medo profundo. O ser vestido de branco tal como um ninja dos desenhos japoneses começou a envelhecer numa velocidade trilopante diante de seus olhos! As roupas foram ficando amareladas, rasgando-se vagarosamente, como se traças as fossem comendo freneticamente. À medida que as vestes se envelheciam, a postura do ser desconhecido também mudava. O que a princípio era uma postura ereta, com braços rentes ao corpo e um aparente tônus muscular enrijecido foi tornando-se um desenho curvilíneo e mole no espaço. A posição corcunda foi tomando de conta do ser branco; sua pele, agora à mostra, por causa dos rasgos espontâneos das roupas, era seca, rachada e parecia nunca ter possuído ao longo da existência um mínimo de elasticidade sequer.
Alucinado com o medo, Maurício nem pôde perceber que o frio aumentara drasticamente durante esse curto espaço de tempo em que estivera frente a seu companheiro de prisão branca. O céu já era sólido branco. Parecia leite empedrado e polido. As paredes de tão geladas grudavam na pele feito gelo. E iam diminuindo progressivamente o tamanho do espaço livre.
A criatura estranha que envelhecia sob as vestes rasgadas em sua frente de repente soltou um grito extremamente fétido e morreu, caindo ao chão bem próximo a seus pés.
Maurício começou a sentir então a pavorosa fragrância cadavérica. Sentiu uma curiosidade imensa de remover o véu que cobria o rosto da criatura estranha que agora jazia morta a seus pés. Sentiu medo também. Sentiu náuseas fortíssimas, mas estava bastante preocupado em vomitar, pois não havia circulação de ar e o fedor de seu vômito se fundiria ao do exalado pelo cadáver e seria muito doloroso permanecer assim com esse fedor hediondo, sabe-se lá por quanto tempo ainda.
Algum tempo depois, que não se sabe se foram minutos, dias ou meses, Maurício tomou coragem e estendeu o braço em direção ao rosto do morto para remover de sua face os andrajos que lhe impediam o reconhecimento da face. Exitou uma vez, mas na segunda, depois de um longo tempo petrificado, irrompeu num gesto certeiro que escorregou pela face do morto o seu véu, antes alvo.
Para minha total surpresa, o rosto do camarada morto era justamente o meu. Pude reconhecer também pela tatuagem na perna do falecido de branco que ele era eu. Ou eu era ele. Não entendi. Maurício não sabia quem era aquele cara morto exalando o pior cheiro que já sentira em toda sua vida, mas mesmo assim o semblante e os traços lhe eram familiares. Ele não sabia que era um personagem, mas à medida que eu escrevia esse conto, Luriel, Dona Lourdes, Glorembaum e temóstoclis acompanhavam lendo avidamente o que era digitado na tela do Word. E como se não bastasse, se comunicavam com outras consciências em dimensões paralelas dizendo sobre a história narrada. Isso deu a Maurício o status de criatura autônoma, com pensamentos próprios e coube a mim, a partir de então, apenas traçar seu destino nas linhas seguintes sem saber como seria ao certo o desfecho. Esses nomes citados não são seres carnais. São consciências que sempre me visitam com freqüência. E enquanto liam, davam a Maurício a certeza de ser criatura de vida própria, embora não fosse dona de seu destino e soubesse disso. Ele era uma existência sublocada na memória alheia, na memória coletiva transdimensional, mas não sabia disso. Muito menos ainda sabia ele que o morto no chão era eu, justamente quem o criou.
Maurício estava preso com o meu outro corpo naquele plano, com tudo gélido e tudo absurdamente branco. A cadaverina empesteava o local, de modo que qualquer um morreria em poucos minutos de tanto sofrimento pela situação.
Ele começou a empurrar o cadáver, que era eu, para a extremidade da parede oposta, no começo com bastante nojo, mas depois de perceber que recato não era coisa que cabia naquele momento, enfiando as mãos nos tecidos já hidrolisados e cheios de bolhas, que se rompiam ao toque de seus dedos.
As consciências que Maurício habitava sem saber eram de uma grandeza tão imensa, que é como comparar o meu tamanho de ser humano com toda a estrela de Antares. Toda a ira dele era endossada pelo poder das consciências que o continha e isso o deu o poder de materializar sua raiva em outros planos: o meu. O pavor, incompreensão, ódio, medo, frio e dor de Maurício me paralisaram. Senti uma estranha sensação em minha boca... um gosto estranho e uma dor entre os dentes. Pude ver no reflexo da tela do computador que eram navalhas que haviam sido plantadas entre os dentes das duas arcadas, de modo que os dois lados do corte ficaram colados às gengivas. Senti um repuxar violento na mandíbula e relutei, mas parece que quanto mais eu tentava impedir que minha boca se fechasse, mais fraco eu ficava. Quando finalmente me entreguei, as navalhas percorreram as gengivas das duas arcadas em corte vertical no sentido de aprofundamento das raízes dos dentes, criando sulcos de elaborado corte, com precisão perfeita. Senti as raízes latejarem, o sangue correr farto na boca e deslizar entre as tiras de tecido mole que haviam se tornado meus lábios. Eu estava zonzo de dor, quando percebi aqui sobre a escrivaninha duas grandes tiras de fita adesiva, onde se podia ler em letras na fonte verdana: produto de alta eficácia para depilação de íris humanas. Lágrimas correram dos meus olhos. A fita começou a levitar em minha frente e minhas pálpebras se abriram sozinhas, mas se abriram tanto que tive a certeza que se sobrevivesse a essa loucura iria ficar tos traços orientais, porque certamente rasgaria os cantos dos olhos. A fita foi se achegando bem devagar, próxima aos olhos estupidamente abertos, e pude até sentir o cheiro da cola, que parecia ser muito potente. Era um cheiro ácido que queimava as narinas. De súbito as fitas se pregaram em meus globos oculares, de modo que mais nada enxerguei naquele momento. Depois disso passei a digitar de olhos fechados com as fitas pregadas e torcendo para que a mensagem fosse passada corretamente. Não sei como, mas havia sido permitido a mim, minutos atrás voltar a digitar o texto. Pelo menos a força dos dedos não havia sido tirada permanentemente. Estava eu a digitar estas palavras quando...








































...foi preciso uma gigante pausa. As fitas foram como que puxadas bruscamente descolando minhas retinas e quase arrancando os meus olhos para fora. Foi a dor mais cruciante que um ser humano já foi capaz de sentir sem desmaiar.
Decidi fazer umas orações para Gaya e pedir que me consentisse o privilégio de estar só para poder terminar meu conto, de modo que Luriel, Dona Lourdes, Glorembaum e temóstoclis fosse embora de uma vez por todas e me deixassem em paz. Aqueles Demônios!
Não sei quem foi que me concedeu o pedido que fiz, mas além de poder ficar sozinho, tive a visão restaurada, embora não tivesse parado de doer.
Continuando: Maurício estava a tentar pedir socorro, mas não havia passagem de som por parte alguma e quando terminou de empurrar o meu cadáver multidimensional para o canto da parede para ficar pelo menos um pouco mais distante, virou-se batendo de cara na parede atrás de si, que havia se mudado de lugar tornando o espaço de Maurício com meu cadáver um cubículo onde só o caberia em pé, bem ao lado do cadáver. Ele lembrou-se de olhar no celular se havia sinal para pedir socorro a algum de seus amigos da engenharia, mas seu celular só escorria mel. Muito mel. Saia mel pelos buraquinhos de se colocar o ouvido, saia mel pelos orifícios de recepção do som, saía mel por todos os orifícios. Muito mel! A ponto de começar a encher o ambiente onde ele estava. Com o mel pelos joelhos, o cadáver coberto de mel, e um fedor insuportavelmente misturado de carniça e mel, ele resolveu abrir seu celular e desencaixar a bateria, para ver o que havia lá dentro. Quando enfim abriu, viu que havia muitas abelhas lá dentro condensadas, que começarem a ferroar seu dedo que estava próximo. Elas começaram a voar, e logo toda a colméia estava ocupando o espaço, de modo que sobrou a Maurício a alternativa de se afogar em mel e morrer junto ao cadáver para não ser picado por tantas abelhas.
Cada abelha que voava pelo cubículo se desesperava, ficava estressada e morria também. Quando as abelhas iam morrendo, o local em que elas caiam mortas se manchava de negro e um buraco se abria. Assim, com muitos buraquinhos feitos, o mel do celular nunca parou de jorrar, mas tinha por onde escorrer. Não se sabe onde esse mel caia, mas com certeza mal sabiam os seus aproveitadores que tratava-se de uma das piores anátemas pós-humanas.
Com sua licença, vou ali marcar uma cirurgia plástica para reconstituir meus lábios. Eles ficaram com uma aparência muito semelhante à de um copo descartável que tem sua boa toda quebrada e descascada como uma banana.
Em algum lugar há de existir Pitangui capaz de resolver isso. Vou pedir que faça uma reparação cerebral também.

domingo, 13 de novembro de 2011

Visita Inesperada

Havia um cinzeiro sobre a mesa. Fiquei olhando para aquele objeto e pensando a respeito de sua funcionalidade, os diferentes formatos, e, em seguida, inevitavelmente, comecei a estabelecer analogias com tipos humanos. Existem cinzeiros de lata, de vidro, de madeira, de plástico e muito provavelmente de uma série de outros materiais que não conheço. Mas o fato é que todos, por mais belos que alguns poucos consigam ser, somente servem para receber o escarro seco do tabaco. Alguns, de plástico, ao longo de seu período de uso deformam-se, mancham-se, e nas raras ocasiões em que são lavados, tem as superfícies arranhadas pela tão abrasiva lã de aço que os asseia. Tem os de lata, que apesar de aparentemente serem um pouquinho mais dignos, apresentam o inconveniente agravante de soltarem casquinhas de sua quase sempre pintura dourada, que esconde a sub-camada enferrujada; que vai sendo misturada com os mais variados tons ásperos de cinza das cinzas. E estes, ao serem lavados, progridem no avanço das manchas enferrujadas e levantamento de casquinhas de tinta ao longo da extensão circular de seus fundos. Cinzeiros de vidro, apesar de manterem sempre uma postura austera frente aos inconvenientes do seu uso, não arranharem com facilidade, não aprisionarem tanto o cheiro de seus dejetos, são apenas vidro, e numa hora dessas, quando o cigarro é um adorno egóico pós álcool, acabarão enfrentando a queda livre patrocinada pelo esbarrão e se partirão em milhares de pedacinhos. Serão ainda esconjurados pelo fato de, além de derrubarem as cinzas, gerarem um amplo espectro de estilhaços a serem recolhidos. Mas estes são ainda meu tipo preferido, pois podem, ainda que em raríssimas ocasiões, cortar o pé ou a mão de seu agressor, ainda que involuntariamente.
Cinzeiros de madeira, coitados, estes me dão mais pena do que qualquer outro tipo. São geralmente constituídos de um tom marrom-pobreza com cheiro rançoso e de lambuja trazem consigo vincos preenchidos de massinha de composição indefinida ao longo de seu bojo. E tem as manchas negras que as pontas acesas dos cigarros vão desenhando como se fosse um processo de obra de arte de mau gosto a longo prazo.
Sempre que perceber aqui, leitor, a falta de uma vírgula, de acentuação gráfica ou qualquer outro recurso da escrita em língua portuguesa que tire o texto de um certo nível básico de decência literária, entenda que foi proposital, mesmo que não tenha sido. Os meus erros estarão aqui sendo todos justificados pela licença poética, certo? Só queria deixar isso bem claro, porque me sinto vulnerável publicando estes pensamentos descontínuos condensados na grafia, onde não possuo pleno domínio da técnica. Não que isso faça de mim uma pessoa que sempre se justifique por suas excentricidades. Nas verdade, isso acaba acontecendo de vez em quando sim, como por exemplo uma vez que em um desenho escrevi sicuta com “s”, onde deveria, na verdade, haver um “C” no início da palavra. Pra não perder o desenho e o trabalho de horas a pintá-lo em lápis de cor, disse a alguns amigos que era proposital. Uma pessoa apenas saberá aqui de tudo isso com o enorme detalhe de que foi sua bondade que me alertou para o erro gráfico. O meu muito obrigado a esta generosa criatura que sempre me tira de enrascadas e me planta os pés no chão quando lanço vôos suicidas.
Mas voltando aos cinzeiros e aos tipos humanos que me lembram...na verdade é apenas um tipo humano e não vários... me refiro àquelas pessoas que se sentem destinadas a receber o excremento sócio-existencial de outras pessoas. Não, não me expressei bem. Mas sabe aquele tipo de pessoa que tem um relacionamento e aceita tudo em nome da união? Parece que tem gente que tem solteirofobia. Singlefobia. Fobia de sentir-se só. De se imaginar livre novamente. E para se afastarem desse medo de estar só, sem um companheiro ou companheira, aceitam tudo, tudo mesmo, dessa outra pessoa em nome do status: “em um relacionamento sério”. Meu cu! E vão se transformando em pessoas cinzeiros. Sua miséria existencial exala um tipo inodoro de cadaverina que só é perceptível nas expressões faciais, gestos e uma ou outra história que são confidenciadas, arranhando a fina superfície desse cemitério de auto-estima.
O diabo, aliás, deve ser fã desse tipo de gente. Posso arriscar um palpite de que deve ter ereções homéricas ao observar este tipo de gente escrava. Prato cheio pra ele.
Por falar nele, outro dia, o danado me fez uma visita. Chegou aqui em casa e se fez notar por pequenos objetos sendo empurrados. Eu estava, como estou agora, na frente do computador dando vazão a pensamentos dadaístas, kafkianos, pós-modernos, medievais, banhados em rancor, com uma camada crocante de ódio, assados num forno de calor do inconsciente e servidos em baixelas de mediocridade, quando senti uma presença no quarto. O colchão da cama ao lado à escrivaninha velha, rangeu sobre o madeiramento da cama, fazendo o característico de alguém que se senta. Fiquei com medo tão intenso que posso jurar que meu coração esqueceu de bater por uns 30 segundos. Me fiz de forte e olhei para o lado. Não havia nada. Mas nesse nada havia uma energia que cortava meu campo visual,e apesar de não ser material, pude vê-la porque senti com algum outro sentido que ainda não aprendemos a nominar. Foi então que rompi o silêncio com um grito repentino e depois dei uma gargalhada. Falei pro cabrunho: Assustou né, capeta? Risos. Acho que ele sorriu também. O convidei a assumir uma aparência física, humana de preferência, para podermos dialogar na modalidade humana. Ele topou. O quarto esquentou pra caramba! Meus olhos arderam e enquanto por uns dois ou três segundos esfreguei os olhos ele apareceu sentado na cama. Estava todo vestido de branco. A pele era muito branca. Os cabelos eram médios, na altura dos ombros, nariz fino, porém não pequeno, lábios muito vermelhos, e olhos hiper negros. Bonitão o cara. Poderia até desfilar pras revistas da D’millus se quisesse. O convidei a ir à cozinha. Peguei a panelinha onde sempre faço o meu café, enchi de água e fui colocá-la no fogão. De repente me lembrei da importância do convidado e piadista que sou falei: “pô, cara, bem que você podia fazer as honras, né?” Ele sorriu, num semblante quase inocente, e segurou a panela, que eu havia levado em sua direção. Ele não podia ler meus pensamentos, mas naquele momento houve, por meio do contato visual, algum tipo de comunicação física não telepata. Ao tocar a panelinha a água ferveu instantaneamente. Falei pro cara: “Cuidado, meu filho, se os Estados Unidos descobrem você e tomam conhecimento desse seu dom, você vai virar até crente pedindo a salvação de Deus, porque os ianques são capazes de qualquer coisa em nome do dinheiro.” Ele sorriu novamente, mas menos inocente do que da outra vez. Passei o café e tomamos.
Eu usei meu adoçante e ele não quis nem adoçante nem açúcar. Tomou puro mesmo com um pouquinho de canela ralada por cima.
Falamos sobre assuntos banais, o clima, homens... Então perguntei sobre o real motivo da visita. Ele me confidenciou que andava rolando no olimpo uma grande crise. Disse-me que Maria, a divina, assumiu uma nova identidade pra evangelizar ali por Santa Maria, Samambaia, Valparaíso, Gama , Águas Lindas e Luziânia. Ela havia assistido à reportagem que foi ao ar em 29 de maio no programa Fantástico e ficou preocupada com a situação aqui. Acontece que ela tem vários perfis pra poder receber as orações. O mais famoso deles era o de Nossa Senhora Aparecida. E acabou que hackearam o perfil dela e ela não estava conseguindo se comunicar com esta região aqui. Mãe muito dedicada que é, resolveu ir pessoalmente atender às súplicas de seus filhos. Mas a polícia de Recanto das Emas a prendeu. O delegado era um tal de Cildas Malafanha. Era um crente xiita. Insuportável. Hediondo. Ela pediu ajuda a Jesus e o filho predileto veio instantaneamente resolver a situação. O delegado Malafanha alegou ter conduzido Maria a cadeia sob acusação de falsidade ideológica. Era Fátima, Desatadora de Nós, Aparecida, Perpétuo Socorro e uma infinidade de outros nomes. Jesus alegou que o crime de falsidade ideológico havia sido criado pelos católicos. Estes, no início do império romano, querendo dar fim ao politeísmo, criaram arbitrariamente este crime, para poder sufocar as divindades gregas. Jesus disse que não havia diferença nenhuma entre cultuar os deuses do olimpo ou os cristãos. Se no olimpo havia vários deuses, no cristianismo também. A própria nossa senhora tinha vários perfis. Um pra cada demanda cultural de cada país. Ela era uma só e se apresentava com dezenas de formas diferentes. Ele justificou que um dos mais belos dons da humanidade é a diversidade: étnica, religiosa, cultural, sexual, física... e que justamente por isso sua mãe se utilizava deste recurso para um contato mais próximo com seus super diferentes filhos espalhados pelo globo terrestre. Mas nada demoveu o Malafanha de sua decisão. Jesus estava desesperado. Estava numa região onde ele havia instaurado o livre arbítrio. Se ele mesmo havia criado o livre arbítrio e isso legitimava sua omissão em vários pedidos de socorro de gente inocente. Agora, só porque ele estava também a provar um pouquinho da dor de seu próprio sistema, não seria legítimo acabar com ele só porque a invenção se voltou contra o criador.
“Complicado”, falei ao diabo.
“Muito”, respondeu... e continuou a narrativa.
O diabo ainda contou que... nossa, acabei de lembrar que preciso almoçar... Jesus estava muito apreensivo, pois precisaria dormir em Luziânia na comunidade Chantilly de Deus. Mas no fundo do seu coração sabia que não era uma boa opção vir pra cá. Ele estava morrendo de ódio do Prefeito Délio Silvera. Chegou a confidenciar a Lúcifer que se visse Délio Silvera, Tônia Xaves, Delfumo Manchado, e todos os outros políticos do “contorno” de Brasília, ele mesmo trataria de transformá-los em pó. E os depositaria nesse grande cinzeiro, que é esta região. Disse que não sobraria um dente na boca de cada um. Disse que o que estes e os que os precederam no poder fizeram com esta área do “contorno” do DF era inadmissível. Ele contou ao diabo que o céu está super populoso, cheio de gente que está morrendo antes da hora por causa do hospital Santa Anta Mugia. Ele disse que a ganância havia tomado tanto espaço dos desmédicos no hospital Santa Anta Mugia, que estes não se preocupavam mais com as dezenas de pessoas que estão morrendo diariamente naquele centro de carnificina. Jesus contou ao diabo que o CPD do céu está um caos. Centenas de pessoas morrendo antes do tempo está ocasionando um congestionamento no Departamento de Gerenciamento de Reencarnações. E que por isto o mundo está super populoso. E por estar super populoso a criminalidade aumenta. O capitalismo ajuda. A era da tecnologia da informação situa o pobre em seu lugar de miséria. A revolta habita em muito maior espaço os corações das pessoas desfavorecidas. O pobre, que tem Orkut, Facebook, Blogs e MSN passa a ter noção e consciência de como ele é fruto de um sistema perverso. É um sistema perverso que se retroalimenta. E Jesus estava desesperado, porque agora além de ter de pensar em tudo isso ainda tinha que se preocupar com sua mãe presa em Recanto das Emas, estava morrendo de medo de dormir em Luziânia por causa da criminalidade, tinha ódio profundo dos políticos citados acima e ainda tinha que dar uma resposta ao Fernando Henrique Cardoso. Jesus pediu consultoria a Fernando Henrique Cardoso para tentar resolver o problema da super população no mundo, já que ele havia conseguido por um freio na inflação do Brasil, mas a proposta de FHC foi privatizar o planeta terra. Jesus não gostou e iria dispensá-lo do cargo. Ainda em relação a Nossa Senhora, ainda tinha outro agravante. Como na época dela o conhecimento ainda não era institucionalizado com as universidades, ela não possuía diploma de nível superior. Estava na iminência de ser transferida para a ala feminina da papuda. Aliás, este nome é super interessante. Papuda é o nome que se deu ao presídio devido ao grande número de casos de hipertireoidismo na região, devido a carência de iodo na alimentação. Como Goiás fica bem distante das regiões litorâneas, sal por aqui há um século atrás era coisa somente para ricos fazendeiros. E o número de mulheres com bócio era grande. Daí quando fizeram o presídio deram este nome a ele.
O fato, leitor, é que o diabo me fez essa visita cordial pra me falar de Jesus e de Nossa Senhora, mas ele estava também muito emocionado e desequilibrado emocionalmente porque era super ligado a Jesus e estava também sofrendo com essa situação toda. Ele abriu vários leques de assunto mas não concluiu nenhum. Dei a ele algumas horas de minha atenção, mas pedi que não viesse com freqüência pois junto com ele sempre vinham as consciências amorfas obsessoras e eu acabava não me sentindo bem. Ele agradeceu o café, e já ia se despedindo, quando perguntei a ele o motivo de ter escolhido justo a mim para confidenciar e desabafar ao que ele respondeu: “Bento estava ocupado, então resolvi dar uma passadinha no Brasil e explorar a região...” ainda dizendo isto, me entregou a xícara onde tomara seu café e tocou-me a mão com a sua. Era tão quente que me queimei. Então o interrompi e disse a ele: “nossa, como você é hot...”
Ele sorriu, se desfez no ar, e deixou uma mensagem telepata que ainda não consegui decifrar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Almoço Indigesto

Fabrício era um homem de beleza singular: 1,82m, cabelos pretíssimos, olhos de um azul profundo e bastante peculiar; em sua íris, banhadas em meio àquele azul violáceo, havia pequenos estilhaços de prata que brilhavam intensamente e davam ao olhar de Fabrício uma profundidade como jamais houvera em olho de nenhuma outra pessoa. Fabrício era aficionado pela coleção de revistas de crochê, bordados e culinária. Praticava esgrima, era nadador assíduo do lago Paranoá e acampava com certa freqüência no Vale da Lua, na Vila de São Jorge.
Perto da hora do almoço, ainda enrolado com as coisas do escritório, ele liga para Otávio, cuja origem desconheço e me faltam os dados de sua personalidade, hábitos e manias, e as ligações sempre acabavam dando na caixa postal. Resolveu então mandar uma mensagem ao amado com os seguintes dizeres: “Querido, chegarei atrasado para o almoço. Vá preparando as verduras, os legumes e lave as loucas, que quando eu chegar termino o restante. Bj”. Como não havia cedilha nem acentuação no teclado do celular de Fabrício, Otávio, que acabava de chegar na casa dos dois, leu a mensagem e interpretou de modo distinto à significação pretendida por Fabrício ao enviar o texto.
Obedecendo às orientações do querido Fabrício, que lhe pedia que lavasse as “loucas” sem cedilha, Otávio colocou um avental, que Almodóvar havia lhe presenteado, calçou suas botinhas da Xuxa, daquelas de plástico rosa, forrou toda a sala com lona azul no chão e nas paredes e se dirigiu ao último dos quatro quartos da casa em que moravam. Lá o barulho era sempre algo constante acompanhado de uma sonoridade bastante específica. Objetos eram passados na porta, arranhando a superfície da mesma pelo lado de dentro, copos americanos eram quebrados a todo momento, um cano pelo lado de dentro vazava sob alta pressão um jato fino de água que conferia ao ambiente uma umidade alta e colônias de mofo e musgo aveludavam o som do fino jorro de água que nunca se esvaia. Otávio pegou seu molho de chaves, escolheu a correta e a introduziu lentamente na fenda que recebe a peça de metal para dar acesso ao lado de dentro do cômodo trancado. Antes que girasse, porém, a chave, sentiu uma incontrolável vontade de ir ao banheiro. Lá estando em frente ao vaso sanitário feito com pneus de um centro de permacultura do oeste goiano, empunhou seu músculo predileto e pensou: “Não há nada mais gostoso que, de membro rijo, dar uma forte, espumante e quente esguichada de mijo”. Terminou, deus três balançadas, como sempre fazia, e com vestígios de uréia nas pontas dos dedos virou-se à pia para lavar as mãos. Ao olhar para o espelho tomou um grande susto. No lugar de sua imagem estava a Hebe Camargo, com um penteado extravagante e muitos diamantes, ostentados a cair por vários colares ao colo. Seu semblante era triste e ela disse a Otávio: Oi, benzinho! Coisa linda do meu Brasil! Sua imagem morreu e eu vim para substituí-la por um tempo. Vamos ser amiguinhos! Receba este terço que comprei em uma de minhas várias que fiz ao Vaticano (disse estendendo a mão com um terço, cor rosa - choque a Otávio). Ele pegou o terço e o colocou no pescoço ainda incrédulo com tudo aquilo. Hebe então explicou que o terço era uma invenção da Comunidade Católica Chantilly de Deus, que ficava em Luziânia. Os membros da comunidade, preocupados com o fato dos mudos não poderem rezar por sua salvação, desenvolveram o terço rosa – choque. Este terço tecnológico ao ter suas pedrinhas apertadas pelo mudo disparava a oração correspondente pelos mini auto-falantes embutidos na cruz. As ave-marias eram rezadas na voz de Carla Perez, que havia se convertido recentemente, os pai-nossos eram rezados na voz de Marlene Matos e a oração do Credo na voz do próprio Lúcifer, que havia se convertido a uma denominação protestante pentecostal, embora freqüentasse e simpatizasse bastante também o catolicismo. Hebe se inclinou para o lado de fora do espelho e em tom de quem implorava algo disse a Otávio: Meu querido, me dê um selinho, dê? Otávio deu um passo para trás. Hebe se inclinou mais e repetiu o pedido, desta vez segurando os braços dele, puxando-o contra seu corpo. Otávio se esquivou violentamente e saiu correndo rumo ao quarto onde a chave estava engatada na fechadura. A esta altura o tercinho de Hebe já havia dado defeito e entre uma ave-maria e outra que ele reproduzia automaticamente, aparecia Elza Soares cantando Flores Horizontais.
Ele abriu a porta do quarto, pegou as quatro loucas que estavam sendo mantidas em cativeiro por seis anos e as conduziu até a sala. Enfileirou-as na parede, pegou uma mangueira e disparou contra elas um forte jato de água. O chão enchia-se de água enquanto ele lavava as loucas e mal percebia ele que a água formava um espelho sob seus pés. Quando a água atingiu alguns milímetros e sua imagem já podia ser formada, Hebe apareceu segurando vários peritônios e esbravejou contra Otávio: Ordinário! Por que me negaste um mísero selinho? É por que eu tive um probleminha no peritônio, é? Pois saiba que tenho quantos quiser! Sou rica, tenho pedras preciosas, ouro, mansões, e muitos terços, mas muitos terços mesmo, da Comunidade Chantilly de Deus, meu filho! Hebe sacou um canivete de um bolso interno de seu vestido branco e abaixo dos pés de Otávio singrou a superfície de fina água. Otávio caiu abruptamente e tornou-se invisível ao mundo carnal. Havia virado sua própria imagem na outra dimensão mas estava com os dias contados, pois imagem não existe sem quem a reflita nas superfícies.
Fabrício chegou em casa, viu as loucas enfileiradas, nuas, molhadas, tremendo de frio. Procurou por toda casa Otávio e não encontrando-o, sentou-se à mesa sozinho , almoçou sem oferecer comida às loucas e sentiu solidão.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Antes Tarde do que Nunca

O morto estava muito desconfortável em seu caixão no fundo dos sete palmos de terra. O ar estava impregnado de um forte aroma das muitas flores que lhe acompanharam. Seus pés estavam imensamente desconfortáveis pois o sapato novo que lhe compraram para usar no funeral era dois números menor do que seu pé, além do mais, a sua meia de algodão branco estava com a ponta dobrada por baixo do dedão. Seu nariz coçava e não podia se mover pois era gordo e suas mãos estavam entrelaçadas sobre a barriga espremida na tampa do caixão apertado demais.
Seu olho estava seco sem nenhuma lágrima, assim como também estava muito seca a sua língua.
Seu único remédio era esperar por meses até que as saúvas lhe diminuíssem o tamanho e se sentisse enfim magro.

Sorriso de Monalisa

Monalisa saiu em sua cobertura e percebeu que sua cobra de estimação estava fazendo digestão, dado o volume enorme em seu ventre. Ela ficou curiosa para ver o que sua linda sucuri havia comido e então pegou um canivete e abriu sua própria barriga. Leonardo da Vinci caiu de seu ventre aberto. Monalisa se arrependeu de ter se cortado. Pois agora só podia andar de cadeira de rodas. Se ousasse se levantar, suas tripas cairiam, pois ela tinha uma grave doença que impedia que seus ferimentos cicatrizassem. Razão pela qual conservava intactos e vivos os cortes e as feridas desde a infância.
Rompendo seus limites ficou de pé segurando seu intestino grosso cheio de fezes que se lhe insistia em escapar por entre os dedos, uma vez que era muito escorregadio, quentinho, melado de sangue, muco e fezes.
Agachou-se sobre ovos de codorna, quebrando a menor quantidade possível, matou um papagaio, e começou a urinar besouros. Enquanto urinava e sentia muita dor e nojo, ligou, por meio de um controle remoto, o aparelho de som que estava suspenso no ar, e deu play em um cd do Chico Buarque, especificamente na música Fado Tropical. Enquanto isso, os besouros saiam aos montes de sua vagina e eram de todas as espécies e tamanhos. Tinha até besouro branco. Os mais graúdos doíam mais, pois suas patas serrilhadas cortavam superficialmente seu clitóris. Passou por três horas urinando besouros e cansada de sua desgraça pessoal, sua condição miserável, começou a comer os besouros. Os primeiros ela comia apenas o abdômen desprezando as patas e a cabeça. Depois de trezentos insetos comidos, perdera o nojo e a dignidade. Comia tudo: cabeça, abdômen e patas, lambendo até o líquido branco que escorria dos bichos, caindo-lhe por entre as falanges dos três primeiros dedos de cada mão, começando a contar pelo dedão.
Monalisa, querendo dar fim a esta moribunda condição, que mais se assemelhava a um filme de terror, levantou-se não se importando com mais nada e saiu andando. Suas tripas ficavam pelo caminho e os besouros ainda lhe escorriam pelo meio das pernas. Passou na cozinha e viu Bertoleza morta, ainda segurando a faca suja de escamar peixes, com a qual acabara de se por fim à vida, rasgando também o ventre. Monalisa se compadeceu um pouco de sua amiga, mas continuou andando pela casa. Encontrou Luzia de Deus do Inferno, paralítica tentando se locomover empurrando uma cadeira de rodas com muita dificuldade. A cadeira de Luzia de Deus do Inferno tinha as rodas quadradas e possuía também grandes bolas de chumbo com espinhos amarradas à parte de trás. Luzia de Deus do Inferno era muito má e já havia perdido significativamente a aparência humana. Quando ainda se parecia com uma mulher, em sua juventude nos idos da década de 10 dos anos 2000, havia sido pessoa muito repulsiva. Merecia sofrimento eterno. Por isto era estuprada por cães negros todos os dias pela manhã e ao começo de cada noite, por volta das 19h ela paria sete cachorros, com a metade de trás portadora da genética dos pais e a metade da frente com genes humanos. Estes, logo ao nascerem, começavam a tentar devorá-la, ao passo que de cima de sua cadeira de rodas de rodas quadradas ela, para se manter viva, matava todas as suas crias após o nascimento.
Monalisa, para dar fim a seu sofrimento e ao de Luzia de Deus do Inferno, conduziu-a até bem próximo da janela do prédio, enfiou a mão em seu buraco no ventre por onde ainda vazavam muito sangue, pus, fezes e tiras enormes de tripas, e puxou cinco metros de intestino grosso e fino, deu um nó no pescoço de Luzia do Inferno, travou sua cadeira de rodas de rodas quadradas e amarrou as mãos de Luzia para trás, numa posição escandalosamente incômoda e dolorida, para que esta não mudasse de idéia no meio do suicídio duplo. Monalisa subiu na janela, conferiu se seu intestino estava bem amarrado ao pescoço de Luzia e suspirou bem fundo. Então se entregou à queda como a virgem se entrega ao marido na primeira noite. Medo, excitação e prazer se misturaram durante os três segundos de queda. Monalisa sentiu um tranco violento quase lhe partir ao meio. De olhos fechados ficou esperando morrer. Algum tempo depois abriu os olhos esperando encontrar o paraíso ou o inferno, apesar da insuportável dor que sentia, mas nada havia mudado. Estava pendurada pelo intestino na janela, os besouros ainda lhe escorriam aos montes pelas pernas e Luzia não havia morrido. Luzia de Deus do inferno, pendurada no tempo espaço colada à Monalisa e sentindo seu próprio peso e o de sua pesadíssima cadeira de rodas quadradas, que era feita de granito, lhe estrangularem o pescoço. Respirava pouco, mas o suficiente para não morrer.
Foi aí que as duas descobriram que estavam na eternidade. Monalisa então se lembrou que era um espírito maligno predestinado a sofrer e a fazer sofrer. Para sempre daquele jeito.
Monalisa era o demônio de Luzia do Inferno, dando-lhe a dádiva daquela situação deplorável pelo resto da eternidade. Notava-se no rosto de Monalisa um leve sorriso de prazer de satisfação por ter sido tão criativa para inconscientemente torturar Luzia. E assim, ficaram as duas até agora e até depois de sua morte, leitor.

Texto Dadá

A negra usava uma vagina postiça e tinha pentelhos loiros com aplique. Sentava-se de guarda-chuvas abertos de calor. As fitas coloridas que estavam atadas às pontas das tranças de seu aplique vaginal vibravam balançando-se no ar com o turbilhão de vapor de virilha que saia. Trazia consigo cílios de lágrimas e uma bacia de soluços sobre a cabeça.
Caiu de picaretas no céu e morreu por 5 minutos.
Ressuscitou em seguida, acordando 20 anos mais velha.
Chorou em frente a Narciso, que permanecia no lago, quando se viu refletida velha nas águas da vaidade. Alguns chamavam o lago de amor próprio.
Retirou sua vagina postiça e enfiou sua mão suja de terra no meio do oco pútrido de carnes entre as pernas. Sacou de lá um tubarão de três metros ainda vivo e furioso e enfiou-o dentro do ouvido de narciso.
Ele morreu por isso. E nem se achava bonito, coitado. Estava a se olhar no lago para conseguir espremer um cravo próximo aos lábios.
Tereza de Calcutá passava por ali no momento e viu a cena. Ficou tão aterrorizada que pariu o Papa, o PT e a renovação carismática católica!
Depois disso Dilma virou presidente do Brasil e o Papa montou uma creche em sociedade com Michael Jackson.
Frederico, o meduso, gritou e um bloco quadrado gigante de mármore explodiu e se quebrou em milhares de serpentes, que grudaram-se no teto do espaço aberto.

O Diabo Estava Cansado

O Diabo estava cansado. Chegou em seu inferno favorito, fechou os olhos e estendeu as mãos para frente com as palmas voltadas para cima. Começou a fechar lentamente os dedos, com os nervos bastante tensionados, de modo a ressaltar as veias, e numa fração pequeníssima de tempo ergueu em torno de si um templo negro à maneira das igrejas góticas. Apontou o dedo indicador em uma direção e fez aparecer uma poltrona preta de textura aveludada. Sentou-se com as mãos sobre a barriga magra enquanto observava uma empregada que limpava o chão numa posição quase sexual. Ela, a empregada, estava no mesmo espaço físico, mas numa outra dimensão: a carnal.
Entediado, o Diabo estalava os dedos repetidamente. Saíam faíscas desse estalar de dedos férreos. Dessas faíscas formaram-se pérolas, que caiam ao chão na dimensão carnal. Deusurânia, membro da renovação carismática católica, estava a esfregar o chão de prata em tons de roxo e percebeu as pérolas que misteriosamente apareciam e quicavam pelo chão desperdiçadas. Mais que depressa catou-as todas o quanto pôde e as escondeu dentro de sua vagina, para que sua patroa não as confiscasse na hora da saída. Empurrava de uma a uma. As pérolas aumentavam de tamanho ao decorrer do dia gradativamente e liberavam uma secreção viscosa que cheirava a pus, fato este que lhe proporcionava um enorme prazer.
Deusurânia saiu do seu trabalho. Chegou em casa e tratou de tomar um banho rapidamente. Lá no banheiro, no segredo de sua nudez, ela enfiou o dedo médio e o dedo indicador da mão esquerda em sua vagina a fim de retirar as pérolas de satã. Estava quase em êxtase, pois tocava seu sexo e ao mesmo tempo, escondida de todos, ouvia músicas do mundo. Baby Consuelo era sua favorita, vindo em seguida Cássia Eller e Maria Bethânia.
Durante anos juntou as pérolas e fez muitos colares. Achava em seu íntimo que os colares do diabo lhe proporcionariam um olhar diferenciado de piedade no dia do juízo final.
Um dia o pessoal do manicômio encontrou Deusurânia sentada no chão do jardim com sangue farto em volta. A surpreenderam enfiando pedrinhas e pedaços pequenos de vidro em sua vagina.
Gritou desesperadamente ao perceber que estava sendo observada. Os seguranças a dominaram, deram tranqüilizante e a fizeram cantar o hino nacional de cabeça para baixo com as pernas totalmente abertas. Depois dessa sessão de terapia lhe deram um vibrador verde e amarelo.

Lucrécia

Lucrecia era uma mulher que tinha um dom especial. Ela via os corpos nus de todos os homens, mesmo quando estes estavam vestidos.
Apesar de excitante, o dom de Lucrecia tinha um preço: sempre que olhava seu pai tinha náuseas por vê-lo nu em pelo. Seu maior medo era um dia se sentir atraída por ele, embora morresse de nojo das várias verrugas marrons enormes que ele tinha distribuídas entre o começo da virilha, passando pelo pênis e terminando no final da base anterior do testículo direito. Fato que exterminava qualquer possibilidade de atração. Mas mesmo assim ela temia.
Certo dia, cansada de viver excitada e não poder contar a ninguém sobre seu dom obsceno, Lucrecia resolveu radicalizar. Ligou no disk pinto e mandou que lhe trouxessem três garotos de programa de primeira linhagem. Estava decidida. Por todos esse longos 35 anos de sua vida ela jamais se atrevera a namorar, pois via seus pretendentes todos nus e a idéia de pecado a fazia recuar antes mesmo de dar o primeiro passo. Era uma imoralidade pela qual se culpava todos os dias e a maneira que encontrou para se penitenciar foi evitar o contato com todos os rapazes. Algumas pessoas achavam até que ela fosse mulher macho. Mas as suspeitas logo eram diluídas como um comprimido de permanganato de potássio em água quente, pois Lucrecia era muito católica e jamais seria capaz de uma subversão dessa magnitude. Sempre que ia à igreja, Lucrecia se policiava para jamais olhar para o cristo, pois religiosamente enxergava seu pênis de gesso, embora este nem estivesse esculpido na estátua. Estava sempre dobrado para a direita em estado se semi-ereção sob a mortalha.
Ela recebeu os três michês e agiu como uma verdadeira puta naquela noite. Chupou dois paus amo mesmo tempo que era penetrada por um terceiro, depois foi penetrada pelo ânus e vagina simultaneamente ao passo que chupava um caralho enorme também.
Depois dessa experiência, Lucrecia tornou-se atéia. Para ela, sexo era mais concreto que Deus. Sexo tinha cheiro, Deus não tinha. Sexo era tátil, Deus não era. Sexo era prazer, Deus era sofrimento. Sexo era apoteose, Deus implicava um estado de submissão muito sem graça. Lucrecia fez seu cu e sua vagina valerem ouro, se prostituiu e ficou rica. Morreu transando e bebendo chandon aos setenta e nove anos em Paris com um belíssimo garoto de dezoito anos.
Não se sabe se Lucrecia encontrou deus do outro lado, ou se sequer acordou do outro lado. Só se sabe apenas que Lucrecia se divertiu muito enquanto viva, não fez mal a ninguém, aproveitou o quanto pôde e morreu feliz.

Apresentação

Dedico este espaço à publicação e compartilhamento de todos os caprichos do meu Id-literário sem nenhum tipo de censura.



Àqueles(as) de estômago forte, o meu sonoro: "Seja bem vindo(a)"



Vocêencontrará aqui alguns pequenos textos que são fruto do meu ócio criativo.

Não sei qual será a regularidade das postagens, mas acredito que serão constantes.

Boa leitura!