segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Batismo ou Maura Traz!

Eram 15h quando Rodrigo chegou em casa. Ele morava sozinho e tinha por hábito receber os amigos aos finais de semana. Os amigos mais íntimos freqüentavam sua casa durante a semana, depois do expediente de trabalho, após as 18h.
Eram 15h quando Mãe Zúh chegou em casa. Ela era dona de um cabaré e tinha por hábito conferir o andamento da casa por completo, conferindo a limpeza do local e as condições de saúde e bem-estar das meninas, das meninas trans e dos meninos também. Recebia os clientes aos finais de semana. Somente os clientes mais ricos freqüentavam a casa durante a semana, após as 18h.
Eram 15h quando Maura, a católica, chegou em casa. Ela era casada e tinha um casal de filhos. Maura era membro da comunidade católica Chantilly de Deus e gostava de receber seus amigos católicos aos finais de semana em sua casa. Somente os amigos mais santos freqüentavam sua casa durante a semana, após as 18h, depois das orações.
Eram 15h quando o relógio decidiu que não iria mais trabalhar.
O tempo parou.
O sol continuou no centro de seu sistema emitindo luz e muito calor, mas os planetas paralisaram-se todos abruptamente. Os movimentos de rotação e translação foram interrompidos de uma só vez. As paredes negras e refletoras, feitas de velatum, que fecham a caixa do universo, de modo a pensarmos ser ele infinito quando vemos o espelho negro, trincaram. Por entre estas rachaduras, passava uma luz diferente de todas as outras que já se viu, estudou ou se supôs no planeta Terra. Perto desses raios brancos lancinantes, o sol mais parecia uma imensa bola de sombra. A humanidade se deu conta de que era apenas um pequeno bolor que habitava uma migalha microscópica de alimento, deixada como resíduo no bolso de um gigante calastrévico.
Às 15h, quando a terra parou seus movimentos, as leis da inércia arrancaram mares inteiros de seus fundos arenosos. Prédios e enormes edifícios foram arremessados com violentíssima força, a ermo, pela atmosfera terrestre. No céu viam-se baleias se estilhaçarem nas hélices de helicópteros ao se chocarem. Aviões colidiam frontalmente com carretas carregadas de soja em grãos a trinta metros do chão. Um velho quebrou um prédio inteiro, andar por andar, ao ser arremessado pelas leis da inércia contra o Supremo Tribunal Funesto. Em Brasília, a fábrica de tintas Cegheira Daltônika explodiu suas caldeiras de processamento de pigmentos. Trilhares de litros de tintas de várias cores voaram pelo ar. O azul desapareceu em meio do céu. Branco, rosa e amarelo, trançaram-se em linha reta pelas ruas estabelecendo-se suspensas no ar, de modo que os transeuntes desesperados correndo e sendo arremessados para todas as direções, ao atravessarem a faixa tintas trançadas imiscíveis entre si, saíam multicoloridos no clima do desespero apocalíptico.
Eram 15h quando se passaram 6h e 27min desde às 15h e ainda assim, eram 15h. Acontece que o relógio não trabalhava. Estava resoluto a não mover um ponteiro sequer. Nem mesmo um segundo, um centésimo ou um milésimo.
Eram 15h quando Rodrigo viu entrar pela janela de sua casa Mãe Zúh, suas meninas, suas meninas trans e seus meninos. Estes de sunga branca, besuntados de óleo paixão, fazendo poses de competições fisiculturistas. As meninas trans, mais musculosas que os rapazes fisiculturistas besuntados de óleos florais, carregavam numa liteira de prata cinco baldes de sangue fresco, recém colhido das feridas purulentas de dez estigmatas roucos de um mosteiro em Abadiânia-GO.
Maura, sua família e seus amigos santos eram trazidos pelas meninas de Zúh, amarradas em coleiras. Maura, seus familiares e seus amigos santos, hipocritamente santos, trajavam, todos, lingeries e calcinhas comestíveis. Estavam descalços. As lingeries eram muito pequenas para os homens, de modo que seus testículos ficavam marcadamente divididos um para cada lado, pendendo para fora da peça íntima com seus pêlos e excessos de pele à mostra. Um deles estava com chato pubiano. Havia sido transmitido pelo padre na sacristia, antes de um batismo de domingo.
A respeito deste batismo faço aqui uma breve incursão a fim de elucidar a importância do evento. Tratava-se do meu batismo. Como ainda era pagão, tendo sido apenas batizado com água benta na pia batismal após o nascimento, resolvi que seria a hora de me purificar e cumprir com tão belo rito! Mandei importar uma travesti de Veneza, na Itália, para me batizar na pia batismal que ficava na lateral da igreja, que conservava suas formas originais, com uma nave central e duas capelas laterais. A travesti chegou vestida com um vestido de plástico transparente. Seu pênis semi-ereto exalava um calor e umidade que embaçava o plástico que recobria a parte que o cobria. O nome da travesti era Béssio. Ela gostava de ser tratada com os pronomes pessoais de tratamento no feminino, apesar de manter seu nome masculino. Nós então a chamávamos de “a” Béssio. Chegada a hora do rito, ajoelhei-me em frente ao púlpito, a Béssio estava soberana de tetas arregaçadas para fora do vestido de plástico fino, em cima do púlpito, olhando ininterrupta para o vão de cadeiras vazias que havia em sua frente, como se visse além daquilo que se pode ver com os olhos de carne. Quando o padre saiu da sacristia, reverenciou a Béssio, fez o sinal da cruz, acendeu uma bolsinha que soltava fumaça e correu feito uma gazela baleada na coluna ao redor de mim e da Béssio. Com um bisturi em mãos, fez uma incisão lateral abaixo das costelas ao meu lado direito e repetiu o procedimento do outro lado. Introduziu em cada um dos furos uma vela com formato de crucifixo, mas ao invés de parafina, era constituída de chocolate bento. A parte central da vela em forma de cruz assemelhava-se a um pênis, com direito a uma glande na extremidade de baixo. Acendeu as velas de chocolate e apagou todas as luzes da igreja, permanecendo apenas as luzes bruxuleantes das velas de chocolate meladas de sangue que estavam abaixo das minhas costelas e um canhão seguidor iluminando a Béssio, que começou a cantar a ave-maria em latim, aramaico e grego. Suas notas agudas, ressoavam e reverberavam pelas paredes da igreja. Ao fim das canções poliglotas, Béssio começou a espremer os mamilos e um jorro de leite foi lançado em minha face. Eu estava sendo banhado pelo leite das tetas de silicone da travesti de Veneza, que a esta altura estava cantando Lata d’água na cabeça, de Elza Soares. Findado o ritual, eu já pertencia ao reino dos réus, com direito a leite de travesti, chocolate, pavio e fósforos queimados como resíduos pelo chão.
Voltando ao que acontecia na casa de Rodrigo exatamente às 15h, Mãe Zúh e suas meninas, meninas trans e meninos, entraram pela janela com um séquito de meninas trans trazendo Maura católica e seus familiares e amigos conduzidos por coleiras de catolissismo: um material usado no fabrico de instrumentos de tortura desde a Idade Média até os dias atuais. Foram todos, com exceção de Maura, apeados aos pés da mesa da sala de jantar. Rodrigo acendeu sete velas vermelhas na frente de uma parede também vermelha e rezou sete salve rainhas. Da parede saiu um exu, todo feito em ossos, segurando o próprio crânio nas mãos, trajando um delicado manto vermelho; no lugar dos pés havia línguas de fogo negro, que lambiam avidamente os detritos disponíveis para combustão. Maura ficou paralisada diante do que estava vendo. Permaneceu petrificada enquanto lágrimas de pus vertiam de seus olhos a jorros fartos. Pomba gira apareceu totalmente nua e sentou-se numa cadeira próxima à mesa onde estavam amarrados os entes queridos de Maura, por meio das coleiras de catolissismo. Já parece tarde para descrever um pouco do que Maura era, mas ainda cabe dizer que tinha olhar de profunda hipocrisia e sofrimento quase crível no semblante desenhado pelas ondulações de seus cabelos cor de burguesia falida: leia-se luzes na cor palha. Todos esperaram pacientemente pelo último membro que presidiria a sessão de cura e libertação. Era o próprio Rodrigo que faltava. Rodrigo chegou em casa, dando de cara com toda aquela situação e assustando-se ao ver seu duplo, o outro Rodrigo, assumir e conduzir aquela situação em sua casa. A presença do Rodrigo original diluiu a do outro Rodrigo e este se desfez no ar, com cara de tristeza.
Sentaram-se à mesa, Rodrigo, Exú Caveira, Mãe Zúh e Pomba Gira. Explicaram a Maura como seria o rito de cura. Cada um dos membros da mesa pensaria em algo, imaginariam esta coisa em seus mais peculiares detalhes, como por exemplo, uma bola de gude rosa choque, que tenha pertencido a apenas uma criança de sete anos, com três arranhões cujas extremidades prolongadas formassem um triângulo isósceles, que tivesse sido fabricada pelas vidraçarias egípcias, por um funcionário solteiro, de 29 anos que morasse no Cairo. Maura havia entendido o espírito da paradinha lá. Quando algum dos membros da mesa gritasse o comando: “Maura Traz!”, ela deveria adivinhar o objeto ou a coisa pensada pelo membro da mesa, sair correndo para conseguir trazer isso à casa de Rodrigo em menos de vinte minutos a coisa ou objeto. A realidade do mundo lá fora, infelizmente não era das mais favoráveis para que Maura obtivesse êxito em suas tarefas hercúleas. Além dos graves problemas causados pela interrupção dos movimentos de rotação e translação dos planetas do sistema solar, com as rachaduras nas paredes do universo, algumas criaturas espirituais, de perversidade até então desconhecida pela humanidade, haviam passado para o lado de cá e assombravam o planeta com uma fome de pânico jamais vista.
Exu Caveira, num rompante, quebrando o silêncio, disse gritando com sua voz áspera: Maura Traz!
Maura saiu correndo desesperadamente a fim de cumprir sua tarefa, desviou de seis elefantes e uma lesma que atravessaram seu caminho, andando descalça por mar, terra, pedras e fogo e conseguiu trazer a Exu o objeto pensado.
Exu Caveira: Maura Traz!
Pomba Gira: Maura Traz!
Rodrigo: Maura Traz!
Mãe Zúh: Maura Traz!
E Maura seguia adivinhando e buscando os objetos.
Nada havia sido dito a este respeito, mas Maura temia que se não conseguisse trazer os objetos pedidos, seus entes queridos, amigos e familiares, seriam mortos de um a um.
Numa das suas infinitas corridas para buscar um objeto, desta vez, solicitado por Rodrigo, Maura atentou-se para o fato de que o tempo havia parado. E que, inclusive, todas as formas de medição de tempo estavam impossibilitadas de serem feitas por aparelhos, cronômetros e relógios digitais ou analógicos.
Sentou-se para descansar sob a sombra de uma lula gigante que pairava morta suspensa do ar, gotejando gotas advindas do processo de autólise, e rezou: Senhor Deus, Pai de misericórdia, oh senhor! Tu, oh, pai, podes saber do que estou passando e bem podes me socorrer neste momento de aflição. Senhor eu sei que somente tu sabes, oh pai, o que é de melhor para minha vida, senhor, e que só a tua sabedoria, pai de amor, é que pode me guiar neste calvário que o inimigo plantou em meu caminho, senhor! Te peço, oh, pai, que o pau nosso de cada noite não falte em minha cama e que meus filhos sejam privados de suas vidas, oh Senhor, o mais breve possível, oh pai, para que não se contaminem com aquelas entidades do espiritismo, da macumbaria, da feitiçaria e de todo o mal. Livra-os, Pai de amor, senhor de misericórdia, Rei dos Reis, shinohara de odolumbalaiê catericram, odoiara chantarialaricatassuia, RO ri maré tarudilibandaluê! Ôria...cân-ta-la-ma-ra-ca-ri cântari!” e se demorou por bastante tempo orando em línguas até adormecer. O estranho é que jamais Maura houvera recebido com língua de oração o idioma russo, inglês, alemão ou mandarim. Apenas as sílabas pré-estabelecidas. Acordou de súbito em frente à mesa com Rodrigo, Mãe Zúh, Exu caveira e Pomba Gira, mas havia encolhido. Estava cinqüenta por cento menor em todas as proporções. Somente sua consciência havia aumentado e seu sofrimento também. Ao tentar se movimentar, percebeu que estava com os movimentos pesados. Maus difíceis de serem executados.
Seus entes queridos estavam agora de pé, sem as coleiras de catolissismo. E já tinham um aspecto um pouco mais digno que a escravidão doutrinária os impunha.
Maura tentou driblar o sistema sete vezes. Na sétima, seu corpo não possuía mais que 25 centímetros de altura.
Seus entes queridos haviam sido libertados das correntes de catolissismo, esse material danoso; mas sobretudo, haviam sido libertados dela e puderam ser felizes e livres como bem entendessem. Havia tempo suficiente para isso, pois o tempo estava parado.
Com sua estatura tão reduzida e seus movimentos totalmente paralisados, nem mesmo suas pálpebras podiam se mover, Maura havia sido transformada em imagem de santa. Santa Maura. De tempos em tempos ela gritava por dentro de dor, quando era chegada a época de restauração. Acontece que seus entes familiares, orgulhosos de ter uma santa na família e libertos das coleiras de catolissismo, se abriram ao politeísmo, e em um mesmo altar, jazia viva paralisada a imagem da mãe deles, uma imagem de Buda, uma de Iemanjá, símbolos orientais, uma imagem de Padre Cícero e vários vidrinhos bonitos com sal grosso e incenso queimando. A fumaça dos incensos e das muitas velas que eram colocadas para queimar se impregnavam em Maura, que era tida como imagem sacra, e freqüentemente ela era submetida a sessões de limpeza e restauração. Ela sentia muitas dores quando as pinças pontiagudas eram passadas em seus olhos para retirar fuligem das pálpebras; mas o que mais doía mesmo eram os intermináveis processos de lixar e depois envernizar.
Um dia, às 15h, os filhos de Maura acordaram com a casa fedendo muito. Era como se um animal, um roedor, algum animal de pequeno porte houvesse morrido e estivesse a putrefar a céu aberto nas imediações da casa. Quando foram fazer uma oração a Bob Marley, os filhos de Maura perceberam que a imagem da mãe deles havia caído do altar e estava mole sobre o chão. Perceberam que ela havia morrido às 15h, no mesmo horário em que Jesus. Ficaram orgulhosos do feito da mãe e a colocaram num vidro com formol. Acontece que a Maura não havia abandonado a sensibilidade do corpo e passou a eternidade sentindo os ardores do líquido corroendo por todos os orifícios de seu corpo.

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