Fabrício era um homem de beleza singular: 1,82m, cabelos pretíssimos, olhos de um azul profundo e bastante peculiar; em sua íris, banhadas em meio àquele azul violáceo, havia pequenos estilhaços de prata que brilhavam intensamente e davam ao olhar de Fabrício uma profundidade como jamais houvera em olho de nenhuma outra pessoa. Fabrício era aficionado pela coleção de revistas de crochê, bordados e culinária. Praticava esgrima, era nadador assíduo do lago Paranoá e acampava com certa freqüência no Vale da Lua, na Vila de São Jorge.
Perto da hora do almoço, ainda enrolado com as coisas do escritório, ele liga para Otávio, cuja origem desconheço e me faltam os dados de sua personalidade, hábitos e manias, e as ligações sempre acabavam dando na caixa postal. Resolveu então mandar uma mensagem ao amado com os seguintes dizeres: “Querido, chegarei atrasado para o almoço. Vá preparando as verduras, os legumes e lave as loucas, que quando eu chegar termino o restante. Bj”. Como não havia cedilha nem acentuação no teclado do celular de Fabrício, Otávio, que acabava de chegar na casa dos dois, leu a mensagem e interpretou de modo distinto à significação pretendida por Fabrício ao enviar o texto.
Obedecendo às orientações do querido Fabrício, que lhe pedia que lavasse as “loucas” sem cedilha, Otávio colocou um avental, que Almodóvar havia lhe presenteado, calçou suas botinhas da Xuxa, daquelas de plástico rosa, forrou toda a sala com lona azul no chão e nas paredes e se dirigiu ao último dos quatro quartos da casa em que moravam. Lá o barulho era sempre algo constante acompanhado de uma sonoridade bastante específica. Objetos eram passados na porta, arranhando a superfície da mesma pelo lado de dentro, copos americanos eram quebrados a todo momento, um cano pelo lado de dentro vazava sob alta pressão um jato fino de água que conferia ao ambiente uma umidade alta e colônias de mofo e musgo aveludavam o som do fino jorro de água que nunca se esvaia. Otávio pegou seu molho de chaves, escolheu a correta e a introduziu lentamente na fenda que recebe a peça de metal para dar acesso ao lado de dentro do cômodo trancado. Antes que girasse, porém, a chave, sentiu uma incontrolável vontade de ir ao banheiro. Lá estando em frente ao vaso sanitário feito com pneus de um centro de permacultura do oeste goiano, empunhou seu músculo predileto e pensou: “Não há nada mais gostoso que, de membro rijo, dar uma forte, espumante e quente esguichada de mijo”. Terminou, deus três balançadas, como sempre fazia, e com vestígios de uréia nas pontas dos dedos virou-se à pia para lavar as mãos. Ao olhar para o espelho tomou um grande susto. No lugar de sua imagem estava a Hebe Camargo, com um penteado extravagante e muitos diamantes, ostentados a cair por vários colares ao colo. Seu semblante era triste e ela disse a Otávio: Oi, benzinho! Coisa linda do meu Brasil! Sua imagem morreu e eu vim para substituí-la por um tempo. Vamos ser amiguinhos! Receba este terço que comprei em uma de minhas várias que fiz ao Vaticano (disse estendendo a mão com um terço, cor rosa - choque a Otávio). Ele pegou o terço e o colocou no pescoço ainda incrédulo com tudo aquilo. Hebe então explicou que o terço era uma invenção da Comunidade Católica Chantilly de Deus, que ficava em Luziânia. Os membros da comunidade, preocupados com o fato dos mudos não poderem rezar por sua salvação, desenvolveram o terço rosa – choque. Este terço tecnológico ao ter suas pedrinhas apertadas pelo mudo disparava a oração correspondente pelos mini auto-falantes embutidos na cruz. As ave-marias eram rezadas na voz de Carla Perez, que havia se convertido recentemente, os pai-nossos eram rezados na voz de Marlene Matos e a oração do Credo na voz do próprio Lúcifer, que havia se convertido a uma denominação protestante pentecostal, embora freqüentasse e simpatizasse bastante também o catolicismo. Hebe se inclinou para o lado de fora do espelho e em tom de quem implorava algo disse a Otávio: Meu querido, me dê um selinho, dê? Otávio deu um passo para trás. Hebe se inclinou mais e repetiu o pedido, desta vez segurando os braços dele, puxando-o contra seu corpo. Otávio se esquivou violentamente e saiu correndo rumo ao quarto onde a chave estava engatada na fechadura. A esta altura o tercinho de Hebe já havia dado defeito e entre uma ave-maria e outra que ele reproduzia automaticamente, aparecia Elza Soares cantando Flores Horizontais.
Ele abriu a porta do quarto, pegou as quatro loucas que estavam sendo mantidas em cativeiro por seis anos e as conduziu até a sala. Enfileirou-as na parede, pegou uma mangueira e disparou contra elas um forte jato de água. O chão enchia-se de água enquanto ele lavava as loucas e mal percebia ele que a água formava um espelho sob seus pés. Quando a água atingiu alguns milímetros e sua imagem já podia ser formada, Hebe apareceu segurando vários peritônios e esbravejou contra Otávio: Ordinário! Por que me negaste um mísero selinho? É por que eu tive um probleminha no peritônio, é? Pois saiba que tenho quantos quiser! Sou rica, tenho pedras preciosas, ouro, mansões, e muitos terços, mas muitos terços mesmo, da Comunidade Chantilly de Deus, meu filho! Hebe sacou um canivete de um bolso interno de seu vestido branco e abaixo dos pés de Otávio singrou a superfície de fina água. Otávio caiu abruptamente e tornou-se invisível ao mundo carnal. Havia virado sua própria imagem na outra dimensão mas estava com os dias contados, pois imagem não existe sem quem a reflita nas superfícies.
Fabrício chegou em casa, viu as loucas enfileiradas, nuas, molhadas, tremendo de frio. Procurou por toda casa Otávio e não encontrando-o, sentou-se à mesa sozinho , almoçou sem oferecer comida às loucas e sentiu solidão.
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